terça-feira, 19 de abril de 2016

Guerras Energéticas: A Ordem Das Coisas



Andei aqui um bocado a brincar com "desenhos" para demonstrar o que estou a pensar. Afinal uma imagem vale por mil palavras.

E penso que neste momento é exactamente o que estamos a assistir.

                                                  EUA

Os Estados Unidos, que são um dos maiores produtores mundiais, aumentaram ainda mais a sua produção com o petróleo de xisto. De tal forma que se tornaram auto-sustentáveis e capazes até de exportar. Algo até aqui inédito.

Os EUA nesta matéria de exportação de energia são os "the new kid on the block", e claro vieram trazer complicações aos produtores que estão em cena. 

E assim se deu início a mais uma guerra energética. Onde todos são afectados, uns mais que outros.

Os EUA, o mais "novo" nestas andanças, gerou muitas expectativas com o revolucionário petróleo de xisto. Com as promessas de muito lucro e rápido, o que não faltou foi dinheiro para o investimento. Mas isto era para valores bem altos do preço do barril. Mas a Arábia Saudita não estava disposta a perder quota de mercado e tinha capacidade para criar séries dificuldades a outros fornecedores, especialmente novos e mais frágeis.

As empresas americanas endividaram-se e bastante, mas não haveria problema em pedir empréstimos, bem como a banca não teria problemas e fornecer empréstimos. O negocio da energia é muito lucrativo e isto prometia lucros e amortizações rápidas. Mas a coisa não correu como se esperava...




E actualmente a realidade é que os EUA já estão a diminuir a sua produção por não conseguir aguentar a pressão. Empresas estão a falir, o desemprego neste sector acelera, os bancos começam a ver dívidas incobráveis.

1) Empresas americanas já não conseguem manter o ritmo de produção, por falta de dinheiro.


U.S. shale output drop seen for 7th month running in May

U.S. shale oil production is expected to fall by a record amount in May in the seventh straight month of declines, a U.S. government forecast showed on Monday, as fallout from a 21-month price rout appears to be picking up steam.

Total output is seen dropping 114,000 barrels per day to 4.84 million bpd, according to the U.S. Energy Information Administration's (EIA) drilling productivity report. If correct, that would be the largest monthly decline since records were available in 2007...

http://www.reuters.com/article/us-usa-oil-productivity-idUSKCN0X82BR


2) Desemprego no sector acelera


U.S. oil job cuts reach about 118,000


...The latest round of layoffs, including recent cuts by Chevron Corp., BP and Anadarko Petroleum Corp., has brought oil-and-gas job cuts across the nation to nearly 118,000 since the beginning of 2015. That's more than one in every five workers the industry had when crude prices began to tumble, the Federal Reserve Bank of Dallas said Friday...

http://www.houstonchronicle.com/business/energy/article/Fed-U-S-oil-job-cuts-reach-about-118-000-7237605.php

3) Os Bancos

Os bancos estão metidos em mais um sarilho. Para quem andou a "vender" que o Xisto era a revolução e a solução para lucros chorudos, está agora metido num rico imbróglio.

Os bancos já não conseguem nem obter o capital que enterraram nestas companhias.


JP Morgan profit falls on US oil loans


JP Morgan Chase has reported a 6.7% drop in quarterly profits as it set aside more funds to cover potential losses at oil and gas companies.

US shale oil companies have come under increasing pressure in the past year as the price of oil has plummeted.
That has forced banks to raise the money they set aside to cover the possible failure of energy firms.

In February, JP Morgan said it would set aside an additional $500m (£357m) to cover potential losses from its exposure to the oil and gas sector.

http://www.bbc.com/news/business-36033113

Ou seja, o declínio só não é maior, porque ao fechar estas companhias, os bancos ainda perdiam mais. O que estamos a assistir é a expremer ao máximo os poços que foram abertos de modo a tentar recuperar o máximo de capital investido. Quanto os poços chegarem ao seu limite a empresa fecha, porque os bancos não vão financiar mais coisa nenhuma.

Assim vemos o destino dos produtores americanos com a jogada agressiva da Arábia Saudita.

Arábia Saudita


A Arábia Saudita de facto conseguiu colocar os produtores americanos em dificuldades e todos os restantes produtores incluindo eles próprios. Os gastos que o país tem actualmente, requerem um preço do crude a um patamar bem superior. E é isso que quero chamar a atenção, o país está a gastar muito e a pressão vai começar a aumentar à medida que as suas reservas vão baixando.

Olhando para este gráfico dá para ver o caminho que o país leva:



Os valores indicados vão até Novembro do ano passado. Abaixo dos 640 mil milhões. 100 mil milhões esturricados num ano. E a sangria continua. Os últimos dados do FMI mostram que em Fevereiro deste ano as reservas baixaram a linha dos 600 mil milhões, estando nos 592 mil milhões.

Daqui a urgência em estancar esta sangria. A Arábia Saudita pode cair na sua própria armadilha e colocar o reino em perigo. Simplesmente não vão ter dinheiro para pagar a todos.

A Arábia Saudita precisa agora de travar a produção. Mas sozinha não o consegue fazer. Principalmente devido a dois produtores. A Rússia que não pertence à OPEC e o Irão que embora pertencendo, estava debaixo de sanções.

Este dois produtores também querem aumentar o preço do barril, mas não estão tão necessitados quanto a Arábia Saudita. E ambos são aliados na Síria, exactamente do lado oposto da Arábia Saudita.

A Arábia Saudita está em guerra económica com a Rússia e o Irão. E está a perder.

Rússia

Olhemos para este gráfico onde mostra as reservas russas. Elas estão a subir. Uma clara diferença do caminho tomado pela a Arábia Saudita.

A Rússia mesmo com os preços actuais, está a conseguir aumentar as suas reservas. Eles estão a aumentar as reservas apesar do preço do barril e das sanções aplicadas.

A dependência russa do petróleo, não é tão acentuado, como toda a gente anda a dizer. Estes dois gráficos mostram que existe um país muito dependente do preço do petróleo e não é a Rússia... 




Por aqui podemos ver que as reuniões para reduzir/congelar a produção, não vão produzir os efeitos desejados pela a Arábia Saudita.

A Rússia pode discutir por mais um ano, se vão ou não congelar a produção. Daqui a um ano ao ritmo que os dois gráficos estão a ir, a Arábia Saudita estará a entrar na linha dos 400 mil milhões e a Rússia também. Só que um a descer e outro a subir.

Qual dos dois estará em pânico? fácil de deduzir...

Enquanto a Arábia Saudita resolveu entalar os produtores americanos, a Rússia resolveu entalar a Arábia Saudita e esta está a começar a sentir na pele o que os produtores americanos e respectiva banca estão a sentir.

Irão 

O Irão, está neste momento numa situação bastante interessante. A queda dos preços não tem um grande impacto, porque o país, não podia vender mesmo. Portanto qualquer venda agora, depois do levantamento das sanções é bem vinda.

Ao contrário da Arábia Saudita, o Irão tem vivido sem o dinheiro da venda do petróleo. Está numa excelente posição para exigir o que quiser e sem pressas.

O Irão vai aumentar a sua produção o que vai contribuir para acelerar os gastos das reservas financeiras da Arábia Saudita.

O Irão vai ganhar cada vez mais dinheiro, mais quota de mercado e verá o seu inimigo atolar-se em problemas.

A Arábia Saudita enfiou-se num buraco e agora não sabe como sair dele. 

A Arábia Saudita está a descobrir que há mais peixes no lago e alguns são maiores que ele...