domingo, 23 de novembro de 2014

Rússia No Espaço: Olhar Para O Futuro

Angara 5, a nova aposta russa
 
A Rússia neste momento é quase só notícia devido aos acontecimentos na Ucrânia, também devido às "invasões" dos seus aviões e navios por este mundo fora. Além disso, a sua economia é amplamente falada porque está em "colapso", devido às duras sanções do mundo Ocidental.
 
A Rússia não é só energia e armamento, se nós neste momento temos a espécie humana permanentemente no espaço, isso deve-se ao programa espacial russo. E a Rússia continua a investir sériamente nesta dispendiosa àrea.
 
A Rússia é lider no lançamento de satélites, tem a responsabilidade de levar e trazer os astronautas que estão na Estação Espacial Internacional, colabora com a ESA (European Space Agency), onde um dos seus foguetões faz parte da família de foguetes da ESA (Ariane 5, Vega, Soyuz) para ser lançado a partir da Guia Francesa, o quanto mostra a enorme ligação entre Europeus e Russos no espaço.
 

22 de Outubro de 2011, 1º foguetão Soyuz a partir da Guiana Francesa.
 
A Soyuz launcher took off from Europe’s Spaceport in French Guiana on 21 October 2011. This was a historic event because it was the first time that a Soyuz was launched from a spaceport other than Baikonur or Plesetsk. It also marked a milestone in the strategic cooperation between Europe and Russia on launchers.
 
The decision to develop the launch infrastructure to enable Soyuz to be launched from French Guiana was of mutual interest to both Europe and Russia, and benefited from funding from the European Community.

Soyuz is a medium-class launcher. Its performance perfectly complements that of the ESA launchers Ariane and Vega...
 

Plataforma construida na Guiana Francesa, dedicada ao foguetão russo
 
 
Human spaceflight
 
To ensure that Soyuz will be able to carry out missions of this type from Europe’s Spaceport, the launch infrastructure has been designed so that it can be smoothly adapted for human spaceflight, should this be decided.
 
 
Além disso, são os foguetões russos que estão a colocar o sistema GPS Europeu no espaço, uma vez mais fruto da parceria entre ambos.
 
Relativamente a sistemas GPS, a Rússia também já tem o seu sistema operacional (GLONASS), outro grande projecto russo nesta àrea do segmento espacial.
 
Neste momento temos mais um avanço importante que é o novo foguetão, um novo modelo, penso que o primeiro foguetão construido pós URSS. O que mostra o investimento e a presença de know How, para quem tem dúvidas da capacidade tecnológica que existe no país. Para mim, indica que as novas gerações estão a herdar os conhecimentos e vão avançar, mantendo o país na vanguarda deste importante segmento.
 
Este ano, não foram só a explosão de um foguete nos EUA, nem o acidente com o Virgin SpaceShipTwo, foi também o ano que se efectuou o primeiro teste ao Angara.

9 de Julho de 2014, lançamento do 1º Angara, versão 1.2 ML
 
 
O lançamento foi efectuado com sucesso e agora o seu irmão bem maior vai também ser testado em condições mais duras, agora em Dezembro.
 

Angara 5



 
Several weeks ahead of a planned liftoff in late December, the biggest new Russian rocket to fly in a generation rolled to its launch pad at the Plesetsk Cosmodrome in northern Russia earlier this month for preflight testing...
 
...Russia envisions the Angara rocket family, which encompasses several configurations aimed at delivering small, medium-class and large satellites into orbit, replacing a range of launchers, including modified ballistic missiles such as Rockot and the heavy-duty Proton. The switchover to Angara rockets will also reduce Russian reliance on foreign suppliers and the Baikonur Cosmodrome in Kazakhstan, which has been the subject of contention between the Russian and Kazakh governments in recent years...
 
 
Além de novos foguetões, temos a construção do novo cosmódromo que irá estar preparado para o Angara, onde deixo algumas fotos deste ano, que mostram como vão as obras. Depois de completo, à volta de 20000 pessoas estarão no complexo, actualmente já trabalham mais de 5000 pessoas.

 Cosmódromo Vostochny



 
Novos foguetões, novo cosmódromo e uma nova nave russa:
 





 
Como é que se pode dizer que a Rússia é só energia e armamento? Vejam a dimensão disto, "isto" é  apenas o segmento espacial, quanta gente tem que estar dedicada a isto? A Rússia tem um rumo, a Rússia está a olhar pelas gerações futuras.
 
Eu, que sou uma pessoa que gosta destas coisas do espaço, vejo com agrado este esforço em colocar a humanidade mais além e tenho pena que tanto esforço seja gasto em futilidades, guerras e politiquices, se o mundo agisse como um só, onde estariamos nós.


domingo, 9 de novembro de 2014

Rússia Afasta-se Da Europa


As recentes notícias fazem-me pensar que a Rússia está a desistir da Europa. O que é mau para nós Europeus. A cooperação entre a Europa e a Rússia seria positiva, onde ambos suprimem algumas das suas mais importantes necessidades. A Europa necessita de energia e muita, pois é um velho continente onde muita coisa já foi explorada, onde a produção energética nos moldes actuais só pode conhecer um caminho, o declínio. A Rússia por seu lado, aspira a um ambiente mais europeu e quer importar tecnologia e know-how de modo a recuperar as suas variadas indústrias. Posso focar alguns projectos importantes entre europeus e russos, como a cooperação espacial, tanto a nível de foguetes como em sistemas GPS,  fabricantes automóvel estão na Rússia a recuperar as fábricas russas, o Sukhoi SuperJet onde países europeus estão envolvidos, etc.
 
A Rússia não quer da Europa apenas dinheiro pela venda da energia, as pessoas estão a esquecer-se que o mundo precisa de energia e a Rússia tanto pode vender à Europa como a outros. A Europa tem sido um cliente especial, mas parece que em breve vai descobrir que tudo tem um preço, as nossas opções têm um preço a pagar.
 
Há algo que a Rússia não vai aceitar e a Europa recusa-se a ver isso. A Rússia quer vender toda a energia que puder à Europa, mas esta não pode avançar lado a lado com estruturas militares para perto das suas fronteiras. A Europa não pode andar de mãos dadas com a NATO em direcção às fronteiras russas.
 
A questão ucraniana, e a participação europeia nesta, parece estar a fazer com que a Rússia esteja a alterar os seus planos de longo prazo. A Rússia vai deixar de olhar para a Europa, a Rússia vai virar-se para a Ásia. O que é mau, porque, tal como a Europa, a Àsia está sedenta de energia e lá está o maior consumidor do planeta, a China.
 
A Europa está a empurrar a Rússia para a China e isto é mau, muito mau e o preço destas opções iremos descobri-las na próximas décadas.


 

Rússia e China fazem segundo acordo para fornecimento de gás
 
Rússia e China assinaram os termos para um acordo de fornecimento de gás pela chamada rota ocidental, meses depois que os dois países selaram um acordo de US$ 400 bilhões em que Moscou entregará à Pequim 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano.

O memorando de entendimento foi assinado entre a russa Gazprom e a estatal chinesa National Petroleum Corporation (CNPC), afirmou o governo russo em comunicado.

Sob os termos do novo entendimento, a CNPC também vai comprar 10% de participação na russa Vankorneft, que é uma subsidiária da maior petrolífera russa, a Rosneft.
 
 
Com este segundo acordo de gás, a Rússia coloca em perigo o fornecimento de gás para a Europa. A Europa que sempre diz que quer aumentar a sua segurança energética, conseguiu alienar o seu maior fornecedor energético. É obra. As implicações disto são gigantescas. A Rússia avançou definitivamente para a política de ter vários clientes e vai fazê-lo mais rápido que a Europa que diz que quer diversificação de fornecedores. Embora eu esteja plenamente de acordo com a necessidade de termos diversos fornecedores, nunca, mas nunca à custa da Rússia. os níveis de energia europeus são demasiado grandes para alianarmos um fornecedor gigante mesmo à nossa porta.
 
A decisão foi tomada, e este segundo acordo, mostra a brutalidade da realidade. São investimentos muito grandes, são valores de fornecimento muito grandes.  Vai ser aberto uma nova rota, um novo pipeline (Altai).
 

 
Esta estrutura vai ser montada rapidamente e dentro de muito poucos anos vamos ter uma nova perspectiva energética. A China, o maior consumidor de energia do mundo, será o maior cliente, do maior fornecedor do mundo. A Europa empurrou a Rússia para os braços da China...
 
Implicações? muitas. O consumo energético crescente europeu não poderá ser colmatado pela Rússia, pois esta estará ocupada a fornecer a China. Russos e Chineses não vão usar o euro nem o dólar nas suas transações. Não existe países de trânsito, as ligações são directas. Não há espaço para porta-aviões, ou seja, estamos numa zona do mundo, em que os EUA dificilmente podem intervir, as rotas de grande controlo são as marítimas, por onde passa a maior parte do tráfego, mas estas ligações são terrestres e directas.
 
Energia? A Rússia fornece.
Dinheiro? A China tem.
 
Europa, o que fomos fazer?

domingo, 2 de novembro de 2014

Gripen: A Melhor Opção Para O Brasil?

Gripen - O Novo Caça Brasileiro
 
O Brasil tem grande experiência em novelas e esta questão dos novos aviões para o Brasil, tem sido uma novela daquelas. Eu há anos que acompanho a evolução do concurso para a compra dos aviões (perto de 15 anos, ainda com Fernando Henrique Cardoso, na presidência!), e interrogo-me se estamos mesmo no fim. Surpreendido por chegar onde chegou, estou. Porquê? porque não me parece nada, mas nada, uma boa escolha para este enorme país.
 
O Brasil é um país de grandes dimensões e este avião não é na minha opinião adequado para estas distâncias, o potencial de crescimento do Brasil, pede algo mais possante. O Brasil está a tornar-se num gigante fornecedor de energia e o mundo tem andando agressivo para com fornecedores energéticos que controlam em "demasiado" os seus recursos energéticos.
 
Á medida que o mundo cresce no consumo de energia, os produtores necessitam de proteger as suas riquezas naturais e o Brasil poderá no futuro ficar em alguma situação delicada pelo o controlo das suas riquezas.
 
Comprar um caça sueco, que usa componentes de outros países e um motor americano, parece-me uma má opção para garantir a independência e operacionalidade dos mesmos. Os EUA colocaram no chão a Força Aérea Venezuelana no chão, ao não permitir a manutenção dos F-16. Ou seja, de acordo com as opções políticas de um país, este pode ou não ficar entalado com o material que tem.
 
Parece-me que o Brasil, bem pode arranjar um "31" com estes caças suecos. Se as opções políticas forem positivas para as relações com os EUA, a coisa vai bem, mas se não fôr...
 
Dado que o Brasil tem feitos contratos significativos com um grande consumidor energético, concorrente dos EUA, a China, em caso de maiores pressões políticas, será fácil fazer ao Brasil, o mesmo que fizeram à Venezuela.
 
O Brasil como grande fornecedor energético, na minha opinião não deveria depender militarmente de um grande consumidor, isto se quiser manter uma política independente deste.
 
Na minha opinião, seria preferível ficar com os caças franceses, onde haveria menos risco de ser bloqueado algum componente essencial. Pois os franceses regra geral fabricam, sem estarem dependente de terceiros.
 
Isto para não falar dos russos, que também estiveram no concurso e depois sairam. Dos BRIC (Brazil, Rússia, India e China) o único que não tem os sukhoi é o Brazil, e o avião está pensado para grandes distâncias, como todos estes países o são. Seria a opção mais interessante a meu ver, embora políticamente compreendo a enorme pressão política que recairia sobre uma decisão destas. O Brasil iria ter com problemas com os EUA.
 
Agora uma coisa é certa, teria menos problemas com um produtor de armamento que não anda a percorrer o mundo à procura de energia. Nunca se sabe o dia de amanhã.
 
Vamos a ver se a coisa corre bem com os Gripen.
 
Espreitar artigos mais antigos onde foco este assunto:
 
 
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ucrânia No Espaço: O Fim?


Explosão de um foguete Antares com destino à Estação Espacial
Internacional
 
 
Foguete da Orbital Science explode durante lançamento
 
Um foguete não tripulado da companhia Orbital Science explodiu, nesta terça-feira, seis segundos após o lançamento da missão de reabastecimento da Estação Espacial Internacional (ISS), informou a Nasa.
 
"O foguete Antares sofreu um acidente logo após a decolagem", reportou o centro de controle da missão da Nasa, em Houston, Texas.
 
Chamas foram vistas na plataforma de lançamento costeira, depois que o foguete decolou na Ilha Wallops, Virgínia, no pôr-do-sol, às 18h22 locais (20h22 de Brasília)...
 
 
Bom, mais uma péssima notícia para a Ucrânia. Apesar das notícias falarem da NASA, este foguete é de uma companhia privada, que a NASA subcontratou para enviar carga para a Estação Espacial Internacional. E pelo video que vi, a coisa deu uma explosão brutal, poucos (muito poucos) segundos depois de começar a subir.
 
Bom, e o que isto tem a ver com a Ucrânia? Tem muito. Os foguetes regra geral são construidos por estágios e o primeiro estágio é UCRANIANO. E muito possivelmente (conclusão muito prematura da minha parte), mas existe grandes hipóteses da falha ser ucraniana.
 
Notícia de 2013:
 
US-Ukrainian Antares rocket launched successfully on Sunday
 
April 21 the Orbital Sciences’ Antares rocket has been successfully launched from the spaceport at Wallops Island, Virginia. The Antares rocket was developed by U.S. Orbital Sciences Corporation in cooperation with Ukraine’s Yuzhnoye SDO and Yuzhmash.
 
Under the contract, the Ukrainian side ensured the design and construction of the first stage of the rocket, whereas the U.S. side was responsible for the second stage, ground infrastructure and marketing. Funding for the program is carried out with NASA’s participation...
 
Mesmo que a falha não seja ucraniana, de certeza que a imprensa em breve vai explorar a situação e meter os americanos com os cabelos em pé. O programa espacial americano está num caos. Actualmente, para colocar americanos na Estação, dependem dos russos e agora descobrem que os foguetes americanos, levam motores ucranianos. Isto vai ser extremamente embaraçoso,  a potência mais forte do mundo, está dependente de russos e ucranianos, estamos afinal a falar do país que meteu homens na lua.
 
Qual me parece ser o resultado desta situação? O desaparecimento da industrial espacial ucraniana. Dada a situação com a Rússia, esta está a acabar com as ligações à Ucrânia, e agora penso que irá ser alvo de pressão americana. Os americanos não querem ver o seu programa espacial neste estado, não vão admitir que estão dependentes de ucranianos para colocar o quer que seja no espaço. A situação é deveras embaraçosa para a Administração Obama. Penso que vai ser exigido que foguetes americanos sejam construidos por americanos.
 
A acontecer isto, o volume de encomendas à Ucrânia, irá aproximar-se do zero e muito possivelmente estamos a assistir ao fim da capacidade ucraniana neste segmento restrito. Muita perda de conhecimento e negócio. Duvido que o governo, a braços com um colapso económico tenha qualquer hipótese de manter à tona esta parte da economia.


sábado, 25 de outubro de 2014

Ucrânia: A Fúria De Cameron

 
 
Vou fazer aqui um paralelismo entre Cameron e a Ucrânia, vou começar por Cameron:

Cameron recusa pagar mais 2,1 mil milhões para orçamento da UE
 
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, deixou nesta sexta-feira bem claro que o Reino Unido não pagará a contribuição adicional para o orçamento da União Europeia (UE), depois de se saber que Bruxelas vai exigir, já a 1 de Dezembro, mais 2100 milhões de euros ao país...
 
...
 
"Há ajustes todos os anos, uma vezes pagamos um pouco mais e outras menos. Mas nunca aconteceu termos de pagar uma conta de 2000 milhões de euros", sublinhou.
E reiterou: "Não vamos de repente passar um cheque de 2000 milhões de euros. Isso não vai acontecer".
 
...
 
Cameron citou o seu homólogo italiano, Matteo Renzi, que terá reagido à revelação dizendo: “Isto não é um número. Isto é uma arma mortífera”.
 
Pelo contrário, outros países têm direito a ser ressarcidos. É o caso da Alemanha e de França, que de acordo com o jornal britânico, receberão de volta 779,2 e 1016,3 milhões de euros, respectivamente.
 
...
 
De acordo com o Financial Times, haverá abertura por parte da chanceler alemã, Angela Merkel, para reavaliar os montantes exigidos pela Comissão Europeia.
 
 
 
Vamos agora olhar para a Ucrânia:
 
Ucrânia. Kiev pediu 2 mil milhões de euros à UE para pagar gás russo
 
A Ucrânia pediu um empréstimo de 2 mil milhões de euros à União Europeia (UE) para pagar a dívida de gás à Rússia, anunciou hoje um porta-voz da Comissão Europeia.
 
O pedido, formulado durante uma reunião ministerial UE-Ucrânia-Rússia para resolver o diferendo sobre o gás, “vai agora ser avaliado em consultas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as autoridades ucranianas”, disse o porta-voz, Simon O’Connor.
 
Com base nessa avaliação, a Comissão “fará uma proposta ao Parlamento Europeu e ao conselho”, que representa os Estados-membros.
 
A Comissão “continua muito empenhada em apoiar a Ucrânia”, disse...

[Link]

Podemos ver claramente a fúria de Cameron ao ter que desembolsar mais de 2 mil milhões, afinal é uma quantia considerável.
 
Agora podemos extrapolar esta situação e pensar no seguinte, qual será a reacção dos europeus se chegarem à conclusão que vão ter que pagar o gás ucraniano? Com tantas medidas de austeridade internas, como justificar estes valores para pagar energia a um país, quando nós a pagamos bem cara?
 
E não vai ser um empréstimo, este dinheiro se fôr para a Ucrânia, não tem volta. Os ucranianos nunca o irão devolver, pois ainda será necessário mais.
 
E porque é que não estamos a conseguir chegar a um acordo na questão do gás? bem, parece que a UE não quer se chegar à frente com o dinheiro, e exactamente por isto, a reacção dos europeus quando se souber o que vamos fazer.
 
Também podemos pensar em algo mais. Será que os ingleses vão fazer as contas ao ver que a Ucrânia pede à UE 2 mil milhões e o que a UE pede aos ingleses são 2.1 mil  milhões? Ou seja, quem vai pagar a factura do gás ucraniano?
 
A Europa vai pagar as opções que tem andado a fazer na Ucrânia bem caro, os custos monetários nos próximos anos e políticos vão ser de monta.

domingo, 12 de outubro de 2014

Acordo Rússia - China: Um Perigo Para A Europa



Este será um artigo que irá chamar a atenção para o futuro energético europeu. Nada de bom. É a própria Europa que diz que  a nossa dependência da Rússia irá aumentar e temos políticos que não estão a querer ver isso, movem-se por idealismos e interesses menos claros que nos vão colocar num futuro não muito longíquo, numa situação semelhante à da Ucrânia de hoje. Não sem energia devido a falta de pagamento, mas sem energia porque a Rússia, não poderá atender a todos os clientes.
 
Hoje, toda a gente sabe, a Rússia está a ser fortemente pressionada por sanções europeias. Também toda a gente sabe que a Rússia depende exclusivamente da venda de matérias primas para se manter à tona.
 
Se toda a gente sabe isso, porque ninguém se questiona, que raio de sanções são estas que não afectam a principal fonte de rendimento, tal como fizeram com o Irão? Toda a gente sabe porquê, parece que estamos dependentes da energia russa, mas estamos a tratar disso, em "breve" a Europa deixará de estar à mercê desses malvados, que nos cortam a energiam quando querem.
 
É aqui que começam os problemas da lógica. Até aqui, é do conhecimento comum. A Rússia corta a energia quando quer e estamos a arranjar alternativas para acabar com a dependência russa.
 
Mas ambas as situações são falsas. A Rússia nunca cortou energia à Europa. A Rússia interrompeu o abastecimento à Europa, depois da Europa estar aos gritos a dizer que a Rússia estava a diminuir o fornecimento de gás  a vários países e foi posto em causa a sua reputação de fornecedor fiável. Isto aconteceu quando a Rússia cortou o gás à Ucrânia e não à Europa e nunca foi colocado a hipótese de ser a Ucrânia a desviar esse gás para si. A Rússia na altura exigiu inspectores europeus em todos os pontos de saída russos, para voltar a abrir as torneiras, curiosamente não vi na imprensa, alguém pensar um pouco mais e pensar no que isto queria dizer.
 
Também não estamos a conseguir arranjar alternativas com a dependência russa. Andamos de ano em ano am falar sempre do mesmo, os anos passam e nada. conversa sim, muita. E porquê? porque é bem mais fácil falar do que fazer. A Europa como um todo é um gigante consumidor de energia que cada vez consome mais, ou seja a cada ano que passa consumimos mais e neste momento a Europa luta para NÃO aumentar a dependência da Rússia, procurando colmatar este aumento com importações vindas de outros produtores e para piorar a situação a própria Europa produz cada vez menos, estamos a esgotar os nossos recursos energéticos.


Os dados mostram claramente, a Europa está dependente de energia
importada e cada vez importa mais, ultrapassando os 50%, ou seja mais
de metade da energia que consumimos é importada. Dados Eurostat

 
Ou seja, a Europa anda à procura no mercado, quem lhes forneça, como anda o RESTO do mundo. A Europa tem que competir com outros grandes consumidores de energia, porque ao contrário do fornecimento que vem da Rússia, que vem por pipelines, a outra maneira é por transporte marítimo. E aqui temos uma GRANDE diferença, um pipeline não muda de rota, um barco SIM. O que quero dizer com isto? Quer a Europa alienar um fornecedor gigante com pipelines, em detrimento de vários fornecedores todos vindos de zonas duvidáveis, com governos bem piores, e que possam amanhã virar os barcos para outro cliente?
 
Temos algo mais, o motor da Europa a Alemanha, está a desactivar a as suas centrais nucleares, mas a Alemanha resolveu o seu problema e deixou de estar dependente de países trânsito, tem um pipeline exclusivo com o fornecedor, o que diz muito sobre a sua opinião acerca da Rússia como fornecedor.
 
Mas a Europa como um todo tem que competir com importadores energéticos de grandes dimensões, o Japão, que ainda por cima devido aos problemas nas suas centrais nucleares, teve que aumentar a importação da energia e a China... a China simplesmente não pára de crescer a um ritmo assustador a cada que passa.
 
Para reforçar um pouco a ideia:
 

 O consumo chinês não pára de crescer, a ritmos alucinantes.
 
 
China is now the world’s largest net importer of petroleum and other liquid fuels 
 
In September 2013, China's net imports of petroleum and other liquids exceeded those of the United States on a monthly basis, making it the largest net importer of crude oil and other liquids in the world. The rise in China's net imports of petroleum and other liquids is driven by steady economic growth, with rapidly rising Chinese petroleum demand outpacing production growth.
 
...
 
 
E o que se passa na Europa, que anda a fazer para acabar com a dependência da Rússia? naturalmente está a aumentar a sua importação via marítima que é como todos os outros fazem. Ou talvez não...
 

Importação de gás LNG dados de 2013, comparados com 2012
 
 
...Asia accounted for 75 percent of global gas demand last year, followed by Europe at 14 percent, the Americas at 9.3 percent and the Middle East at 1.3 percent, according to the Global Group of LNG Importers, an industry lobby in Paris. LNG imports into Europe declined in the past two years amid higher bids from Asian and South American customers seeking higher volumes, according to the organization...
 
...In 2013, Europe had net LNG imports of 35 million tonnes – its lowest volumes since 2004 and well below the 66 million tonnes in the peak year of 2011...
 
...LNG spot prices in Asia (and Latin America) stayed high, reflecting underlying tightness in the industry and reinforcing our view that the volumes were “pulled” away from Europe. In this environment, Asia was the predominant price-setting region for spot LNG cargoes...
 
 
A Europa habituada aos preços mais suaves e a ter um fornecedor gigantesco ao lado não está a gostar da experiência de ter que andar no mercado a competir com os asiáticos que pagam o que fôr preciso.  A Europa anda a brincar com o fogo com isto de querer afastar a Rússia...
 
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Como demorei muito a escrever, vou escrever uma "parte 2" mais tarde. O tempo que se gasta com isto...

domingo, 5 de outubro de 2014

Ucrânia: O Peso Da Rússia II


 
 


Vou focar-me na pressão russa, não sobre pressão militar que é a mais focada/falada na imprensa, mas sim económica. Enquanto muita atenção é dada à tensa trégua existente, o que vai ser decisivo nas tomadas de decisão é a pressão económica que pesa sobre a Ucrânia. E aqui temos alguns factores que não nos podemos esquecer.
 
Pelo o gráfico que coloquei, dá para visualizar a situação global ucraniana, ela é um gráfico descendente tal como as reservas de dinheiro que possui. E este é o grande problema, o dinheiro que a Ucrânia possui, o dinheiro que o país ainda consegue gerar, o dinheiro que consegue manter no seu território, nos seus bancos.
 
A moeda ucraniana tem perdido valor em relação ao dólar, ela está em queda livre, ou seja tudo o que seja importado é mais caro. Ora o país cada vez necessita de mais coisas importadas, porque está mergulhado numa guerra civil e muito do que produzia, está neste momento parado. Menos produção, menos dinheiro, mais desemprego, tudo a contribuir para uma maior fragilidade do país.
 
De todas as fragilidades, vou focar na que considero mais premente, a questão da energia, ou seja o gás.
 
Se até hoje a Ucrânia, se baseou em gás subsidiado russo, a mudança agora para preços de mercado é de todo impossível. Eles podem importar gás de outros produtores? podem, mas precisam de pagar preços de mercado e dinheiro é coisa que não têm e do pouco que têm e como a moeda ucraniana vale cada vez menos, seria necessário massivas quantidade de dinheiro para pagar o gás importado.
 
Podiamos pensar, que podem recorrer às suas reservas de moeda estrangeira, mas aqui entra o gráfico que coloquei, as reservas estão perigosamente baixas ou seja não vão conseguir virar para este lado. Comprando a quem quer que seja, tem ainda uma outra agravante, reflectir os preços de mercado ao mercado doméstico/industrial seria acabar com toda a indústria que ainda subsiste e atirar as pessoas para a miséria, porque não terão dinheiro para nada.
 
Só vejo duas alternativas para a questão do gás, ou negoceiam com os russos ou negoceiam com os europeus, um deles terá que subsidiar o gás, ou seja um deles irá pagar o gás ucraniano. Pelo o comportamento da Europa, estes foram muito activos em apoios democráticos, mas quando chegou a altura de avançar com dinheiro, olham para o lado, prova disso está na proposta da União Europeia para esta questão, os ucranianos que paguem. Algo que nunca conseguiram até hoje...
 
Resta negociar com a Rússia. E aqui começam os problemas, a Rússia encostou a Ucrânia completamente à parede. Retirou a Crimeia, quebrando a territoriedade territorial, parou com o fornecimento de gás, dá apoio aos territórios rebeldes e o Inverno está ai. Os trunfos estão do lado dos russos.
 
Como se isto não bastasse, temos as dívidas do gás, a Rússia reclama em números redondos 5 mil milhões em dívida e para retomar o fornecimento, a dívida tem que ser paga e têm que fazer o pré pagamento do gás que querem comprar.
 
Mas a coisa ainda não fica por aqui, a Rússia no ano passado, fez um empréstimo à Ucrânia de 3 mil milhões e esta dívida tem andado a pairar o país como uma sombra sinistra.
 
Só para a Rússia temos dívidas na ordem dos 8 mil milhões, exigem pré-pagamento do gás pretendido e a preços de mercado.
 
Vamos olhar para a ajuda que já veio do FMI, 1ª tranche 3,2 mil milhões, 2ª tranche de 1,4 mil milhões, isto dá para pagar uns 50% da dívida ucraniana aos russos e o dinheiro do FMI não é para ser usado nesse contexto. Podiamos pensar nos euros e dólares que tanto ao Europa como os EUA têm dado à Ucrânia, mas as quantidades têm sido na ordem de alguns meros milhões, o que não dá nem para a cova de um dente.
 
Portanto, a Ucrânia vai ter que engolir a questão da Crimeia e começar a pensar em dizer sim a qualquer coisa que os russos queiram, ou não haverá gás de todo neste inverno, esta é a realidade, a Ucrânia está completamente nas mãos da Rússia e a Europa é responsável por esta gigantesca confusão.
 
E como a Europa é responsável, se calhar arrisca-se a pagar de uma maneira ou de outra.
Porquê? A Ucrânia pode simplesmente retirar para si o gás que necessita e que está a ser enviado para a Europa. A acontecer isso, a Europa estaria a colher as tempestades que andou a semear. Porque não estou a ver como é que a Europa irá conseguir desbloquear o seu gás, sem que alguém pague a dívida ucraniana.
 
Até o tempo está do lado da Rússia, não será esta que terá pressa em resolver esta questão, a pressa estará na Ucrânia e na Europa.
 
Que venha o Inverno.