domingo, 1 de novembro de 2015

Aviso à Navegação: A Nova Armada Russa




A decisão por parte da Rússia de entrar no conflito da Síria em força, tem inúmeras ramificações. Serão necessários a meu ver alguns artigos para analisar alguns dos aspectos que considero cruciais, pois a Rússia, está  a demonstrar bastantes novas capacidades, com significativo impacto estratégico.

Este artigo será dedicado essencialmente a uma parte da modernização em curso da marinha russa. A frota do Mar Cáspio e a frota do Mar negro, sobre esta última já tenho alguns artigos dedicados.

As 3 novas corvetas russas que entraram ao serviço no Mar Cáspio no ano passado, são navios de pequenas dimensões, mais dedicadas a um controlo próximo do litoral, das fronteiras russas. Mas estas pequenas embarcações, algumas com menos de um ano em serviço, tiveram o seu baptismo de fogo. E apanhou muita gente desprevenida. Apesar de pequenas, conseguem influenciar numa zona a milhares de quilómetros.


Nova corveta Buyan-M, entrada em serviço em 2014

O lançamento dos 26 mísseis de cruzeiro, tiveram como origem o Mar Cáspio, recorrendo a 4 embarcações novas, uma fragata e 3 corvetas e um tipo de míssil novo.

Fragata, entrada ao serviço em 2012, corvetas em 2014, míssil em 2012


3M-14T - Entrada ao serviço em 2012
Opção de instalação do míssil num contentor, o que permite ser colocado 
na marinha mercante, para orçamentos mais apertados e não só.

O acto de disparar 26 mísseis de cruzeiro, a partir do Mar Cáspio, pretende transmitir vários avisos:

- Determinação russa nos seus objectivos.
- Capacidade em atingir alvos com precisão a 1500 km de distância.
- As novas embarcações e o novo míssil funcionam.
- O sistema GPS russo GLONASS, funciona.
- A integração de uma embarcação nova, com um míssil novo e um sistema GPS também novo, funciona e está demonstrada.
- Embarcações no Mar Cáspio e fora do alcance dos porta aviões americanos possuem a capacidade de afectar vários teatros de operações. Possuem capacidade de dar suporte às nova zonas de intervenção russa, Crimeia e Síria.
- Demonstração aos clientes e potenciais clientes da letalidade e precisão do armamento russo.
- Clientes russos com acesso a armamento disponível com sistema GPS. Monopólio americano quebrado. O "desligar" do sistema GPS deixa de ter importância, existe alternativa.
- Aviso a várias nações, que não estão tão longe assim das novas armas disponíveis.


Precisão GLONASS, correcções de rota, míssil e embarcações testadas

Ao apercebermos do poder de fogo destas pequenas embarcações, podemos agora ter uma ideia mais clara do significado do surgimento destas no Mar Negro. A Crimeia vai ter dentro de poucos dias, as duas primeiras corvetas Buyan-M para a frota do Mar Negro.

A Frota do Mar Negro vai receber ainda este ano duas corvetas Buyan-M

Juntamente com estas novas corvetas, a frota do Mar Negro, está a receber também este ano, novos submarinos com a capacidade de disparar os mesmos mísseis. Ficando o actual panorama neste mar com 3 novos submarinos e 2 novas corvetas. Esta evolução confirma o que já foi indicado num post anterior,  o fornecimento de 6 novos submarinos e 6 novas embarcações para esta frota.

 Isto em plena crise do preço do petróleo, sanções, rublo. E ainda compram ouro.

Quanto a estas novas embarcações ao contrário das que estão no Mar Cáspio, estas podem deslocar-se para o mediterrâneo. Aqui novos contornos se formam:


Apesar da proibição de sobrevoo em direcção à Síria, por vários países, todos membros da NATO, a Rússia conseguiu chegar à Síria, por mar e ar, e estas novas embarcações conseguem atingir qualquer país da NATO e conseguem envolver-se em países onde estão instalados interesses russos, ou seja, mais algumas peças para esta complicada equação. 


Os novos navios não vão andar sozinhos, principalmente numa zona cheio de embarcações NATO. Eles serão complementares ao que já existe e fornecem novas opções aos militares russos.

Frota russa no Mediterrâneo perto da Síria

Estamos a assistir em "directo" à modernização do arsenal russo. Os russos resolveram dar uma pequena amostra do potencial, mostrando os seus mais pequenos recursos que estão a ser construídos, os submarinos Kilo a diesel e as pequenas corvetas.

Um sinal do que aí vem e que também está a ser construído e a sair. Novos submarinos nucleares, novos mísseis nucleares, supersónicos e hipersónicos, novas embarcações de superfície, bem maiores e letais.

Num mar, perto de si.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ucrânia - O avião II





Bom, estive a aguardar pela saída do relatório oficial da investigação ao MH-17. É impressionante o que se lê na imprensa. Ao ponto por exemplo no Observador,(que é um site onde também participo no espaço de comentários, principalmente quando o assunto foca a Rússia), horas antes de sair o relatório, fazer uma noticia baseado num jornal holandês, que dizia que havia participação russa no abate do avião de acordo com fontes anónimas. Horas antes.

A imprensa tanto nacional como internacional esteve durante todo o tempo desde que ocorreu esta tragédia a apontar os dedos à Rússia. Sempre a Rússia, nunca parando para pensar se haveria mais culpados nesta tragédia. Ao longo dos meses, sempre foi saindo umas notícias, sempre com umas fontes duvidosas para relembrar os leitores quem seriam os culpados da coisa. Só podiam ser os russos. Não houve margem para segundos pensamentos, o culpado estava encontrado.

Eu na altura também quis registar a minha opinião sobre este assunto, tendo criado um post Ucrânia - O avião para poder comparar a minha opinião com o que quer que saísse numa investigação oficial. 

Vou agora comparar o que disse na altura, com os resultados agora da averiguação:

1)

...Se já acho criminoso a Ucrânia ter deixado o seu espaço aberto para aviação civil...

Relatório:

...Management of the airspace above a country is an exclusive right of the sovereign state. From this exclusive right, the Dutch Safety Board also derives a large responsibility borne by the state concerned. For the purpose of this management, the state has the exclusive power to close the airspace (or a part thereof) or restrict its use if there is a reason to consider such a measure...

...In the international system of responsibilities, the sovereign state bears sole responsibility for the safety of the airspace. The fundamental principle of sovereignty can give rise to vulnerability when states are faced with armed conflicts on their territory and in their airspace...

...The statements made by the Ukrainian authorities in which they reported that military aeroplanes had been shot down on 14 and 16 July, and in which they mentioned weapon systems that were able to reach cruising altitude of civil aeroplanes, provided sufficient reason for closing the airspace above the eastern part of Ukraine as a precaution...

...according to the Ukrainian authorities, the shooting down of an Antonov An-26 on 14 July 2014 and that of a Sukhoi Su-25 on 16 July 2014 occurred while these aeroplanes were flying at altitudes beyond the effective range of MANPADS. The weapon systems mentioned by the Ukrainian authorities in relation to the shooting down of these aircraft can pose a risk to civil aeroplanes, because they are capable of reaching their cruising altitude. However, no measures were taken to protect civil aeroplanes against these weapon systems...

2)

...ainda consigo vislumbrar alguns motivos para a Ucrânia querer manter aberto o seu espaço, tais como, poder usar aviões seus nas mesmas rotas, para verificar posição dos separatistas...

Relatório:

... The decision-making processes related to the use of Ukraine’s airspace was dominated by the interests of military aviation...

...During the armed conflict in the eastern part of Ukraine, the initiative for taking measures related to the airspace, based on safety analyses, originated from the military authoritiesThe findings of the Dutch Safety Board, as reported above, mean that it is plausible that decisions related to the airspace were primarily taken from the perspective of the military’s interest, in which a potential risk to civil aviation was not the subject of any explicit consideration.

3)

De que nos serve organizações como a ICAO (International Civil Aviation Organization), a EASA (European Aviation Safety Agency), a FAA (Federal Aviation Administration), que com tantas regras, tantas protecções, tantas verificações de segurança, de que nos vale isto tudo, se quando formos comprar uma viagem para a nossa família para um destino de férias, fazem-nos passar por zonas de conflito onde aviões são abatidos?

Relatório:

... third parties such as ICAO - did not identify potential risks posed by the armed conflict in the eastern part of Ukraine to civil aviation...

...ICAO did not see any reason for questioning Ukraine or offer assistance...

4)

...E também quem não fica bem nesta fotografia, são todas as companhias que por uma questão económica, usaram estas rotas sabendo da falta de segurança das mesmas e que se refugiam na desculpa de que o espaço aéreo estava aberto e daí parecerem querer lavar as mãos...

Relatório:

...As operating carrier, Malaysia Airlines was responsible for the safe operation of flight MH17 and therefore for the choice of the flight route on 17 July 2014. The way in which Malaysia Airlines prepared and operated the flight complied with the applicable regulations. Malaysia Airlines relied on aeronautical information and did not perform any additional risk assessment...

...Given the vulnerability of states facing an armed conflict, operators and other aviation parties cannot take it for granted that the airspace above the conflict zone is safe. They should perform their own risk assessment of the risks involved in overflying conflict areas...

Eu não vou continuar mais, isto dá trabalho e penso que dá para perceber o que quero transmitir.

Primeiro, a maior fatia de responsabilidade recai sobre a Ucrânia. A Ucrânia é responsável pelo o seu espaço aéreo e este deveria estar fechado. Se estivesse fechado esta tragédia não teria acontecido.

O que a Ucrânia demonstrou, foi que os países envolvidos em conflitos, não são de confiança, no que toca a decisões sobre o seu espaço aéreo. As organizações e companhias não se podem basear nas informações fornecidas pelos países em questão.

Este caso é mais grave, porque é um país apoiado por nós, Ocidentais. Ou seja, os países ocidentais deram suporte à Ucrânia e a imprensa também. Mas as investigações devem ser sérias e isentas, e não seria possível fugir muito das regras, da verdade das coisas. Uma investigação deturpada ou viciada, iria atirar a coisa para outros patamares mais graves. Não é só a imprensa histérica que atira opinões cá para fora. Existe neste mundo, pessoas e estados que estão a ver com atenção sobre como estes assuntos são tratados, não é possível deturpar as regras do jogo a "nosso" favor. As regras existem.

Este caso não vai ficar por aqui. Há muito coisa em jogo, como o prestigio de nações, companhias e dinheiro para indemnizações.

Mas uma  coisa é certa, não será pelas notícias que a imprensa coloca que vamos ficar a saber da coisa. A imprensa procura o escândalo, o que seja mais rentável. A imprensa não procura a verdade e nem se dá ao trabalho de a procurar.

Já passaram dois dias após saída do relatório. O que se sabe das conclusões a que se chegou? 

Que era um míssil russo...

E depois?

O facto é que se o espaço aéreo estivesse fechado como deveria estar, nenhum míssil russo, americano, inglês, francês, chinês, conseguiria abater um avião.

Essa é que a verdade. 

Mas vemos isto falado em algum lado? Assim que se começou a perceber onde recai as culpas, deixa de ser notícia...

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Ucrânia: Europa Dá Mais Mil Milhões Para Compra de Gás




Agora que o Inverno se aproxima, é necessário garantir que exista pressão nos pipelines ucranianos. As brincadeiras de poupar gás, comprar pouco gás, ou  não comprar gás nenhum, podem ser feitas no Verão, mas não podem ser feitas no Inverno.

A Ucrânia, tem as suas reservas em baixo, porque tem estado a consumir essas reservas. Incluindo o gás necessário para manter a pressão nos pipelines.

Dado que a Ucrânia não tem capacidade de comprar gás à Rússia, e não consegue comprar a outro fornecedor, porque não tem como pagar valores de mercado, uma vez mais alguém  terá que o pagar.

Mil Milhões é o valor do próximo cheque. Os europeus vão ter que se habituar a pagar o  gás que os ucranianos consomem.

Ukraine in Line for $1 Billion Gas Financing

International financial institutions, led by the World Bank, are patching together a $1 billion financing package to help Ukraine and its energy giant OAO Naftogaz to fill up its natural gas-storage facilities and avoid shortages...

...The $1 billion financing package would allow Naftogaz to buy some 5 billion cubic meters of gas in the coming weeks and months, bringing volumes in its ample storage facilities to around 19 BCM, European officials say. That is the level the European Commission, the EU's executive, believes is necessary to bring Ukraine and the EU through a cold winter...

...Most of the funding will come from the World Bank, which is preparing a $500 million guarantee for the Ukrainian government for gas purchases by Naftogaz...

That initiative, in turn, is made possible by up to $520 million in guarantees from the Luxembourg-based European Investment Bank for other World Bank infrastructure projects in Ukraine...


A Europa criou um novo problema e agora só com cheques atrás de cheques consegue resolver. Para garantir que o gás chegue à Europa, não necessita apenas de o pagar. tem que pagar o gás da Ucrânia, porque o gás europeu passa por lá.

Como mostra o artigo, são empréstimos atrás de empréstimos. Se não é o FMI é o Banco Mundial. Mas são empréstimos, e quem está a garantir o dinheiro? A Europa. As garantias são dadas todas pela a Europa. 

Se a Europa não pagar o gás ucraniano, este retira do pipeline o gás a caminho da europa, para os europeus e pago por europeus.

Próximo cheque: os 3 mil milhões que a Ucrânia tem que pagar até final do ano à Rússia.

Quem paga?


sábado, 19 de setembro de 2015

A "Fraqueza" Da Economia Russa


Agora com a renovação das sanções da União Europeia, penso ser interessante dar uma olhadela aos efeitos de ano e meio das mesmas.

As sanções juntamente com a queda do preço do petróleo, a queda do rublo e o foco da imprensa anunciando o colapso da economia russa, deram uma imagem de uma Rússia prestes a tombar.

Em posts anteriores, sempre fui indicando que a Rússia tinha capacidade de navegar no meio desta tempestade, mostrando alguns exemplos como a questão das reservas financeiras, a contínua aquisição de ouro, a participação no banco dos BRIC, etc.

Continuo a achar que sim, e vou mostrar alguns dados, que não coincidem com a imagem de uma Rússia economicamente em dificuldades.


OURO



A Rússia continua a acumular ouro. Com grandes compras, como informa a Bloomberg:


Russia Boosts Gold Reserves by Most in at Least Five Months

Russia’s appetite for gold accelerated last month, with the country adding the most to its reserves since at least March.

The nation increased holdings to 42.4 million ounces from 41.4 million ounces in July, the central bank said on its website Friday. The amount bought was about the same as the 30.5 metric tons that Russia purchased in March, then the highest amount in six months...

...It’s been steadily buying bullion even as international sanctions over the Ukrainian conflict and a plunge in oil prices contributed to a collapse in the ruble...



CRIMEIA

Os custos são astronómicos, estamos a falar de um novo pedaço de território, manter uma força militar activa e crescente, pensões, ordenados, etc. 

Além disso, a Crimeia não é auto-suficiente em energia, na água, as ligações ferroviárias e rodoviárias necessitam de atravessar território ucraniano.

É necessário construir novas infraestruturas para cortar a dependência da Ucrânia e a Rússia está a fazê-lo:

Energia:


 Arranque da construção de uma central energética


Ligações energéticas:





Ligações rodoviárias/ferroviárias:

 Ponte para ligar a Crimeia à Rússia





Área para albergar os trabalhadores envolvidos na construção da ponte

ESPAÇO

Nesta área é de salientar os avanços do novo cosmódromo. É uma obra de envergadura, já falei dela no ano passado e constato que as obras continuam a bom ritmo, ou seja existe financiamento.






Vale a pena ver os vídeos





AVIAÇÃO CIVIL

Este tema já o foquei em 2009 e 2010. O novo avião russo, o MS-21 está avançar e talvez se consiga vê-lo a voar para o ano. Seja como for é um outro projecto importante que não está parado, ou seja, há dinheiro.



Existe projectos na área do nuclear e na questão do Ártico, que estou a pensar em desenvolver em artigos separados. Mas ambos mostram o mesmo, estão a avançar e os investimentos são de monta.

Além disto estamos a ver que a Rússia, com sanções, queda do rublo, energia com baixos preços, consegue além de adquirir ouro e manter os seus projectos de interesse nacional, tomar a iniciativa que estamos a ver na Síria.

É bastante interessante ver a capacidade que a Rússia está a demonstrar ao entrar militarmente num país que está infestado de radicais e com várias forças militares estrangeiras na área, hostis à presença russa.

A Rússia definitivamente está a crescer, a ganhar confiança, e a reclamar o seu espaço no mundo.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Efeito Grécia e Crimeia: Capacidade Ofensiva Chinesa Aumenta


A crise grega e a situação na Crimeia, trouxeram um interessante desenvolvimento. Com pouco efeito na Europa, mas com um enorme impacto na Ásia.

Uma das coisas que sempre foi referido acerca das capacidades militares chinesas ao longo dos anos, foi a sua falta de projecção. Expandir a sua área de influência, tem sido algo problemático. Para contrariar os seus desejos expansionistas, temos Taiwan, Japão e claro, os EUA. As frotas americanas com os seus porta-aviões são um forte dissuasor, limitando bastante as opções chinesas.

A China tem investido fortemente, no aumento do seu poderio militar, tendo em vista negar o actual domínio por parte dos EUA nesta zona do globo. Com a ajuda da Ucrânia, a China adquire o seu primeiro porta-aviões. Foi anunciado na altura que iria ser um casino, mas em 2012 ficou assim:

1º porta aviões chinês de fabrico soviético

Comprado em 1998 para ser um casino...

Dá para ter uma ideia, dos planos a longo prazo que vão fazendo. Adquirir disfarçadamente um porta-aviões com a justificação de um casino flutuante, para 14 anos depois aparecer como o primeiro porta-aviões chinês, mostra que existe planos atrás de planos e que nem tudo o que anunciam, significa a realidade algures no futuro.

A modernização e aumento das capacidades militares chinesas têm aumentado significativamente durante estes anos. O Japão mostra cada vez mais sinais de nervosismo, porque isto não augura nada de bom num futuro não muito longínquo, várias nações na área estão na mesma situação, a China dá sinais de querer dar início à sua expansão.

Aqui começamos, com algo bastante interessante. É possível expandir o nosso território? afinal ainda há espaço no planeta terra. A China encontrou uma solução, que é uma espécie de dois em um. Expande território  e cria "novos porta-aviões". As novas ilhas chinesas, construídas artificialmente.

Construção de uma pista de grandes dimensões

A actividade é impressionante

Estes são os novos "porta-aviões", que apesar de estáticos, têm a vantagem de poder conter vários sistemas defensivos como ofensivos. Estas ilhas necessitam de receber todo o  tipo de suporte vindas do continente e para tal o tamanho da pista irá permitir receber qualquer tipo de avião, e terá também um porto. E em caso de crise, quando a pista não estiver em condições de receber aviões, ou o porto desactivado devido a uma situação de conflito, planeia a China alternativas?

Sim.

A China está a construir o maior avião anfíbio do mundo, o AG-600. E é para estar pronto ainda este ano.


AG-600 




Podemos considerar que seja para um rápido reforço de algo que as ilhas necessitem, não havendo condições para usar a pista.

E se algo mais for necessário, algo maior e mais pesado? como levar para uma ilha onde tanto o aeroporto como o porto estiverem inoperacionais, rapidamente?

Para isto a China decidiu investir no maior hovercraft do mundo, o Zubr de fabrico soviético.

Zubr - Maior hovercraft do mundo

Este hovercraft possui a capacidade de transportar 3 tanques pesados, em alternativa 10 tanques ligeiros, ou 360 soldados completamente equipados.

Para tal decidiu adquirir uma frota de 4. A encomenda foi feita à Ucrânia que herdou a capacidade de os fabricar. O problema desta encomenda, foi ter sido acordado que dois deles seriam construídos na China, passando para a China o conhecimento. A Rússia que também os constrói, não gostou.

O panorama mudou com a integração da Crimeia na Rússia. É que estes hovercrafts são produzidos na Crimeia, tendo a Ucrânia perdido a capacidade de produção, estando toda nas mãos dos russos.

Em 2014, o 2º hovercraft produzido na Ucrânia, foi entregue à China, com a autorização da Rússia.

Construído na Crimeia - Ucrânia, agora Crimeia - Rússia 

Ou seja, a alteração do mapa político na Ucrânia/Rússia não colocou em perigo a entrega dos navios, afinal a relação Rússia/China é bem mais extensa. Ficou a questão de quem ficaria a cargo a assistência aos 2 restantes navios a serem produzidos na China.

Notícias recentes esclarecem a coisa:


Russia's Rosoboronexport to supply China with Zubr landing craft
ordered in Ukraine

According to Russian state owned news outlet TASS, Russia’s arms exporter Rosoboronexport intends to fulfill the contract on the supply of the Zubr landing ships to China, Rosoboronexport deputy CEO Igor Sevastyanov told reporters on Friday at the International Maritime Defence Show (IMDS-2015) in St. Petersburg.

"The Morye shipyard that designed these Zubr vessels is a Russian plant, so, naturally, the task is to fulfill this contract — the contract that had been signed between Ukraine and the People’s Republic of China," Sevastyanov said.


A Rússia dá o seu aval, a China terá os seus 4 navios, para poder deslocar a alta velocidade, qualquer coisa como 12 taques pesados, ou 40 tanques ligeiros, ou 1440 soldados.

E aqui entra a crise grega. A crise grega deu um sério impulso às capacidades de transporte chinesas. Com a necessidade imperativa de obter dinheiro, a Grécia vendeu os seus Hovercrafts à China. A Grécia possuia 4 Hovercrafts, do mesmo modelo, os Zubr.

A crise grega, que não foi resolvida em tempo útil, deu à China num curto espaço de tempo a duplicação da sua frota. A China nem precisa de aguardar pela construção deles (os outros foram encomendados em 2009 e assistimos à entrega do 2º em 2014), 5 anos foram ganhos pela crise grega.

A China possui agora a maior frota deste género, com a capacidade de deslocar 24 tanques pesados, 80 tanques ligeiros, ou 2880 soldados.

Até onde poderá ir os efeitos da crise grega, mas uma coisa é certa. A política externa europeia, está a ter resultados desastrosos para os interesses europeus. Num curto espaço de tempo, a Europa arranjou várias crises. A crise do Mediterrâneo, a crise da Ucrânia,a crise da Rússia, a crise do fornecimento energético, a crise grega.

A Europa, conseguiu desviar a energia russa para a China, a produção de leite para a China e até material militar que coloca a China numa posição muito mais forte nos mares da China.

Que mais conseguirá a Europa fazer?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Programa Espacial Americano Aumenta Dependência Da Rússia





Este artigo será uma continuação do Sanções: Faz O Que Te Digo, Não Faças O Que Eu Faço onde chama a atenção para a dependência americana da Rússia no sector espacial. O que pretendo com este novo artigo é realçar que essa dependência está a agravar-se e não parece haver solução para os próximos tempos.

Neste momento os EUA dependem da Rússia, para levar os seus astronautas para o espaço, como também depende para levar os seus satélites militares. Ou seja, neste momento só colocam os seus astronautas e alguns dos seus satélites, porque a Rússia o permite.

Isto mostra, que a Rússia ainda possui alguns trunfos na manga, ou seja capacidade de resposta a certos tipos de sanções que possam ser activados. Impedir os astronautas americanos de aceder à Estação Espacial Internacional, seria deveras embaraçoso. Da mesma maneira, ficar impedido de lançar os seus satélites militares, é, além de embaraçoso, uma falha grave na segurança nacional.

Após a falha do Space X, com a explosão de um foguetão 2 minutos após o lançamento e que iria reabastecer a ISS, fez lembrar estas coisas de foguetões, não é apenas desenhar um e lançá-lo. Este tipo de empreendimentos exige somas muito avultadas e muitos percalços pelo o caminho. E não é por ser uma empresa privada que as coisas vão andar melhor. Privado ou não, os contractos são estatais e esta empresa privada está dependente de dinheiros públicos.

Mas a questão aqui é outra que quero chamar a atenção. Após a explosão deste foguetão, temos declarações do senador John McCain que mostra a frustração e impotência de não poder afastar a dependência russa.

Saiu um artigo no The Wall Street Journal, que levanta as questões, o imbróglio, onde o programa espacial americano está metido. Não foi escrito por um curioso na matéria, foi escrito pelo General William Shelton, e que deixo aqui um excerto da bibliografia:




Gen. William L. Shelton is Commander, Air Force Space Command, Peterson Air Force Base, Colo. He is responsible for organizing, equipping, training and maintaining mission-ready space and cyberspace forces and capabilities for North American Aerospace Defense Command, U.S. Strategic Command and other combatant commands around the world. General Shelton oversees Air Force network operations; manages a global network of satellite command and control, communications, missile warning and space launch facilities; and is responsible for space system development and acquisition. He leads more than 42,000 professionals assigned to 134 locations worldwide.

Até Agosto de 2014 este foi o seu posto, e basicamente o que defende é que não se pode deixar de comprar os motores russos, enquanto não existir alternativa viável, os EUA terão que depender da Rússia, como podemos ver pelo o artigo:


National Security After the SpaceX Explosion

Congress’s demand to cease using Russian engines may leave the military dependent on unproven rockets.

The explosion of an unmanned SpaceX rocket after liftoff at Cape Canaveral in Florida on Sunday was a graphic reminder of why U.S. national space policy requires that there be two independent means of launching satellites for national-security missions: in case one launch system fails. 

...Critics who are unhappy about the use of Russian rocket engines for national-security launches have campaigned to get SpaceX involved in those missions. But the failure of its Falcon 9 version 1.1 rocket should give everyone pause about jettisoning a dependable arrangement vital to U.S. security...

Current U.S. space policy is implemented by buying both the Atlas V and Delta IV rockets from the United Launch Alliance, a joint venture of Lockheed Martin and Boeing. Both rockets have a 100% success record—83 launches without failure.

Yet Congress is on the verge of passing legislation—the fiscal 2016 National Defense Authorization Act—that will put U.S. space policy at considerable risk.

The problem arose last year from attacks on United Launch Alliance as a monopoly and for using Russian-made engines on its rockets...

Today the Atlas V lofts two-thirds of all national-security satellites. The first stage of the rocket is powered by the Russian-produced RD-180 engine...

...before any new company can compete for national-security launch contracts, it must pass a rigorous certification process to ensure its rocket or rockets are reliable.

SpaceX is the first company to complete the certification process for its Falcon 9 Version 1.1 rocket—the one that failed on Sunday...

...the fiscal 2015 National Defense Authorization Act, which became law last December, banned using the Russian-made RD-180 beyond the remaining few engines already under contract. The purported rationale is to uphold Russian sanctions and avoid rewarding the country’s bad behavior in Ukraine and elsewhere...

The December legislation also mandated that a new American rocket engine be ready by 2019...Many experts are dubious about this timetable. Yet even if United Launch Alliance can meet the deadline, it will run out of RD-180 engines well before its new rocket is ready...


...Once United Launch Alliance runs out of RD-180 engines and Delta IV production stops, the only available rocket for most payloads will be SpaceX’s uncertified Falcon 9 Full Thrust...


Resumindo, temos uma data, 2019 para ter uma alternativa aos motores russos, mas essa data está a ser colocado em causa, por alguém de que sabe do que fala e ainda só estamos em 2015. Os EUA vão ter que comprar mais motores à Rússia até 2019 e ainda vamos ver a partir daí, quantos anos mais serão necessários.

Dado que o General retirou-se no ano passado, vamos ver o que diz o novo comandante:


Air Force: RD-180 replacement timeline tight, could limit competition

Pentagon and Air Force officials Friday warned lawmakers that a congressional push to limit the use of a Russian-made rocket engine, and the development of a U.S.-made alternative, is likely to extend beyond the 2019 deadline.

Gen. John Hyten, commander of Air Force Space Command, told the House Armed Services Committee that the Senate Armed Services Committee's push to stop all use of the Russian-made RD-180 engine, which is used on national security payloads, is "aggressive."

United Launch Alliance, SpaceX, Orbital ATK, Aerojet Rocketdyne and Blue Origin – told the committee earlier Friday that they could get their rockets ready by the 2019 deadline. However, Hyten warned, those rockets would still need to be certified, and launch systems would need to be adjusted to work with the new rockets, adding years until a new launch system would be ready.

Even a copy of the RD-180 engine built to drop in to a ULA Atlas V would take years to develop by accounting for even minor changes in engineering, said Lt. Gen. Samuel Graves, commander of the Air Force Space and Missile Center. There would be modifications to launch vehicle structures, fuel systems, heat shields, thrust vector control and throttling, all adding time to an already tight deadline. 

...You cannot simply drop in a replacement rocket engine without extensively re-engineering the entire launch system."...

Michael Griffin, the deputy chair of an RD-180 Availability Risk Mitigation Study, said the Senate's action is "too abrupt," and does not allow the Pentagon to wean itself off of the Russian engine...

While Senate leaders, especially Armed Services Committee chairman Sen. John McCain, R-Arizona, are anxious to completely stop the use of the RD-180, House lawmakers were more accepting to the need to keep some of the rockets available to keep assured access to space.

The Senate Armed Services Committee's version of the fiscal 2016 National Defense Authorization Act limits the Pentagon's amount of Russian RD-180 rocket engines to nine...

...The Air Force wants to be able to buy 14 more of the engines to be able to cover launches until 2022...


Resumindo, o actual comandante, partilha a mesma opinião do anterior, não existe actualmente alternativa aos motores russos e é necessário garantir a sua aquisição. Mais, o actual comandante coloca em causa o prazo de 2019, duvidando que exista alternativa por essa altura.

Podemos ver isso claramente, pelo o que é pedido. É autorizada a compra de mais 9 motores russos, mas a Força Aérea pretendo 14 motores. Isto para cobrir os lançamentos até 2022!

Ou seja, as sanções à Rússia foram criadas em 2014 e foi no ano passado que começou esta polémica. Um ano depois, descobrimos que o prazo para 2019, não é realista e que pelo menos até 2022, não haverá alternativas credíveis, 8 anos depois de ter sido decidido aplicar sanções à Rússia!!!

Mas se isto só por si já é bastante grave, o que aí vem é bem pior!

Estes motores estão a ser construídos exclusivamente para os Estados Unidos, existindo aqui também uma dependência russa na sua venda. E se os EUA estão à procura de uma alternativa, a Rússia também está e ela chama-se China.

A China indicou este mês que está interessado no motor que a Rússia constrói para os Estados Unidos, para uso no seu programa lunar.

Ou seja, os EUA podem não ter 8 anos para encontrar uma alternativa, pois a Rússia já encontrou um novo cliente. A China.

O preço da "brincadeira" na Ucrânia, mostra-se cada vez mais elevado.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sanções Europeias, O Preço A Pagar



Vou escrever um pouco mais sobre este assunto, de modo a reflectirmos e pensarmos no enorme impacto que as opções europeias vão ter na Europa, nós incluído.

Vou focar apenas um dos sectores que foi e está a ser afectado, o do leite.

Antes de mais, tentemos visualizar o que significa as sanções à Rússia. A Europa está a fazer sanções a UM país, a Rússia. Um país que demograficamente equivale a 14 países da dimensão de Portugal. Ou seja, pela nossa dimensão, a Europa estaria a sancionar 14 países. Muita gente.

Podemos dizer que parte da balança comercial entre a Europa e Rússia, possui algum equilíbrio, a Rússia exporta principalmente energia para a Europa e importa desta vários produtos. Com a entrada das sanções, gerou uma resposta simétrica, vários produtos europeus foram barrados de entrar, mas a energia continua a fluir para a Europa.

A Rússia continua a fornecer energia e a ser paga em moeda forte pela mesma, os produtores/fornecedores europeus, viram uma porta a ser fechada. Uma, ou 14 portas, depende da perspectiva que se queira ver.

Vamos então focar o sector do leite, algo que afecta também os produtores portugueses.

Final de 2014:

NUVENS NEGRAS SOBRE A PRODUÇÃO DE LEITE EM PORTUGAL

"Milhares de produtores de leite em Portugal foram surpreendidos com uma prenda amarga, poucos dias antes do Natal: a comunicação da baixa de 3 cêntimos por litro de leite pago ao produtor, a partir de 1 de Janeiro de 2015. Para a maioria dos produtores, isto representará uma descida de 6 cêntimos / litro no prazo de 8 meses. Para alguns, serão 8 cêntimos. Com esta baixa de quase 10%, a esmagadora maioria da produção irá ficar no limiar da rentabilidade...

...Esta baixa de preço, que ocorre quando estamos ainda a três meses do final do regime de quotas leiteiras, representa uma enorme nuvem negra sobre a produção do leite português. É público que o mercado europeu de leite regista dificuldades devido ao embargo russo e à redução de importações por parte da China...


Junho de 2015:

Setor do leite confrontado com "previsões ainda mais pessimistas"

As quotas leiteiras na União Europeia acabaram há três meses. Três associações de produtores, ouvidas pela TSF, dizem que o setor está a atravessar uma grave crise e que várias explorações poderão ter de fechar.

José Campos Oliveira da Associação de Produtores de Leite e Carne diz que o setor atravessa uma crise que "não tem paralelo desde que o país aderiu à União Europeia". Este dirigente associativo diz que o embargo à Rússia, o fim das quotas e a dimuição do consumo de leite estão a criar uma "situação gravíssima" que originou uma quebra de preços na "ordem dos 25 a 30%".

José Campos Oliveira revela que várias explorações estão a vender abaixo dos custos de produção e "isso não é sustentável por muito tempo.

Carlos Neves, da Associação de Produtores de Leite de Portugal diz que a situação "ultrapassou as previsões mais pessimistas. Há importações de queijo ao preço da chuva. Há menos consumo e mais produção na Europa"...



"Há menos consumo e mais produção na Europa..."

Pois há, e se a situação já ultrapassou as previsões mais pessimistas, então o que vem aí é um desastre. Um desastre que não vai passar ao lado do sector português.

A coisa vai rebentar-nos na cara. Vamos então ao problema que aí vem.

100,000-cow-power dairy farm in China to feed Russian market

A 100,000-cow dairy farm is being constructed in Northeast China to supply the Russian market with milk and cheese, in what can be construed as agricultural geopolitics.

Russia has extended an import ban of most agricultural products from the United States, Canada, Europe, Australia and Norway until August 2016, in retaliation for recently renewed Western economic sanctions over Russia's military moves in Ukraine and Crimea.

It will be the world's largest dairy farm and will be funded with 1 billion yuan ($161 million) from Russian and Chinese investors. China's Zhongding Dairy Farming and Russia's Severny Bur will work together on the project.

China already is home to the world's largest dairy operation, a 40,000-cow unit of the Maanshan, Anhui province-based China Modern Dairy Holdings Ltd, which operates 24 farms throughout the mainland.

The largest US dairy farm is in Fair Oaks, Indiana, where 30,000 cows ply their trade...

Earlier this month, China's Huae Sinban Co signed an agreement to lease 115,000 hectares (284,000 acres) in Russia's Transbaikal region for feedstock, according to state-run Russia Today. The company is expected to invest about $450 million in the project over the next half century.Huae Sinban plans to lease up to 200,000 hectares in Russia if the first stage of the project from 2015-2018 works out...

..."The scale of Chinese investment in dairy production is vast," Raymond told UK-based Farmers Weekly. "I wonder now whether we will ever get the Russian milk market back...

..."For the larger EU economies - Germany included - the costs are bearable. For some of the smaller EU economies, the pain will be more acute," the Times reported, quoting RBS Capital.


Uma vez mais, um projecto conjunto da Rússia e China. A maior quinta do mundo na China para alimentar o mercado russo e localizado na Rússia, uma enorme zona de pastagem. A quem se pode agradecer este empreendimento? à Europa.

A Europa com as suas sanções, fechou a porta. Quando quiser abrir de novo, irá descobrir, já não estará ninguém do outro lado à espera.

O que vai acontecer aos produtores dos países europeus mais frágeis como o caso de Portugal?

Vão contentar-se com um pensamento: 

"Estamos falidos, deixamos de produzir, mas demos uma lição àqueles russos sobre o que fizeram na Ucrânia."

A Europa fechou a porta a um mercado de 140 milhões e já não haverá retorno. E só me estou a referir ao leite.