terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sanções Europeias, O Preço A Pagar II



No artigo anterior  [Sanções Europeias, O Preço A Pagar], foquei o sector do leite, um sector com impacto significativo em Portugal, vamos agora focar um outro que está a ter também um impacto muito significativo e que vai sofrer ainda mais no futuro. O sector de suinicultura.

Este sector está a atravessar sérias dificuldades e quem está no ramo sabe a origem do problema:

Federação dos Suinicultores alerta para colapso eminente do setor

"Estamos hoje a atravessar a maior e mais dramática crise de sempre. O setor está à beira do colapso, estamos na iminência de perder nos próximos dias 50% da produção nacional e de lançar no desemprego centenas de famílias", avisou hoje no parlamento o vice-presidente da Federação, David Neves...

...A crise no setor já vem de trás, segundo a Federação, e deve-se a vários fatores, nomeadamente, "ao excesso de produção da União Europeia e ao embargo russo, que trouxeram problemas à produção nacional"...


Queda do preço da carne de porco resulta do embargo da Rússia

A Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) disse hoje que a redução de preços da carne de porco "resulta de uma conjuntura europeia desfavorável e que se tem acentuado ao longo do ano", respondendo assim às críticas dos suinicultores...

...Perante estas acusações, a APED, que representa os supermercados e hipermercados, alertou que a baixa de preços da carne de porco é uma situação que tem acontecido por toda a Europa e que uma das causas é o "embargo russo aos produtos europeus". 


A guerra das sanções, está a provocar baixas. E não só na Rússia. Como podemos observar, países mais pequenos como Portugal, vão sofrer mais que os grandes países europeus, também produtores. A nossa capacidade de reclamação é bastante limitada no contexto europeu.  

O que significa? que em vez de produzirmos, vamos ter que reduzir a produção e passar a viver de subsídios de compensação. Sermos pagos para nada fazer. Isto enquanto durar as sanções.

Enquanto durar as sanções? Não, esta história não vai ter um final feliz, para os produtores portugueses. A Europa vai ter mesmo que reduzir a sua produção. Portugal incluído. 

E porquê?

Porque a Rússia, com as sanções acabou por proteger o seu mercado e investir internamente. A Rússia vai passar a produzir tanto que vai deixar de importar e passar a exportar carne.

A Rússia era um cliente da carne europeia e agora vai passar a ser um concorrente. A Rússia passa a exportar carne.

É uma dupla machadada neste sector europeu. A Europa fornecia carne à Rússia. Agora além de perder um enorme cliente, vai assistir o cliente a passar a vender carne a outros clientes europeus.

Portugal vai perder empregos.

A Rússia vai ganhar empregos e muitos.

Putin Sparks Russia Pork Boom as Import Ban Expands Hog Breeding

Hog farmers in Russia are producing so much pork that they are selling it overseas just three years after the country was importing more of the meat than any other buyer except Japan.

Domestic output has increased 26 percent in four years to the highest yet, and imports have plunged by more than 80 percent from a peak in 2012, U.S. Department of Agriculture data show. The industry’s resurgence, which led to slumping hog prices from the U.S. to Germany, got some help from a Russian government increasingly uneasy about relying on foreign food supplies and its strained relationship with neighbors...

...Russia’s increasing self-reliance is contributing to a slump in global prices, according to the USDA. Hog futures traded in Chicago have fallen 26 percent since the start of 2015 to 59.8 cents a pound, while pig prices in Germany slumped in November to the lowest level since January 2011, according to industry group ISN. Cheaper pork may boost international trading in the meat in 2016, the USDA said...




Como o artigo da Bloomberg indica, a redução de importação de carne de porco, assistiu a uma redução de 80%.

O 2º maior importador mundial de carne de porco, vai passar a exportar. Os maiores mercados importadores de carne de porco, estão bem perto da Rússia. Japão, China e Coreia do Sul vão muito certamente passar a ser clientes russos em detrimento de exportadores como os Estados Unidos e Europa.

Os maiores exportadores de carne de porco são os EUA e Europa. Os EUA vendem em dólares, a Europa em euros.

A Rússia... toda gente sabe como está o valor do rublo. O custo de produção de carne de porco na Rússia é inferior, o que tornará as suas exportações muito competitivas.

Portugal... nós... estamos lixados. A corda rebenta sempre com os mais fracos. E já está a rebentar como se pode ver no sector do leite. O artigo que fiz no Verão de 2015, indicava o que aí vinha. E aí está, um artigo deste mês a indicar no rico sarilho em que estamos metidos.


Buraco orçamental de 300 milhões de euros dificulta 
obtenção de mais verbas para o leite

O ministro da Agricultura afirmou que encontrou um "buraco financeiro" de 300 milhões de euros no Programa de Desenvolvimento Rural (PDR), que pode condicionar as medidas para o setor do leite que pretende apresentar a Bruxelas...

...Governo anterior assumiu compromissos que excedem em 300 milhões de euros a dotação do programa, sendo necessário recorrer ao Orçamento do Estado nos próximos anos (OE), o que vai dificultar a alocação de verbas para um programa do leite, explicou...

[Link]

Não bebe leite? Não será desculpa para não o pagar. Agora todos vamos pagar o leite, pelas compras ou pelos os impostos. Se calhar será mais um enfiado no preço da gasolina...

Tudo em nome das sanções à Rússia. Que parece que está a sofrer imenso com isto.

Está a sofrer tanto com isso que a McDonalds, resolve abrir 60 restaurantes este ano. E como se isso não  bastasse, anunciam que vão passar a produzir tudo o que é necessário para os restaurantes no país.

Alguém está a pensar no que isto quer dizer? alguém está a fazer contas sobre a geração de emprego que está a ser feito no país?

Alguém está a pensar no efeito da guerra das sanções?

Com a queda do rublo, as empresas não podem importar que lhes sai caro e dado que a Rússia é um grande mercado, não pode ser negligenciado e passam a produzir localmente. Emprego destruído no exterior, como Portugal, e emprego gerado na Rússia.


McDonald's Is Making a Big Push in Russia This Year


McDonald’s plans to open more than 60 restaurants in Russia in 2016, increasing the pace of expansion from last year, after its focus on local suppliers and affordable menus has proved successful in an economic crisis...

...He said the company had to make “serious adjustments” to its business model after sanctions and the weakening of the rouble put pressure on its margins...

The development of local supply has played a big role in supporting our profitability,” he said on Monday.

In 2016, capital spending will focus on modernization and further investment in local supply as well as new openings.

Khasbulatov said the company hoped to achieve full localization, helping smooth out the impact of currency swings and Russia’s food import ban.


It’s important to localize not only food processing but also production,” he said...

[Link]

As sanções estão a prejudicar? estão.

Mas... estão a prejudicar quem?

sábado, 16 de janeiro de 2016

Um Breve Olhar Para A Economia Russa





O ano de 2015 passou. Está na hora de dar uma olhadela à economia russa, agora que saiu uns dados que estava a aguardar. O colapso do barril do petróleo e as sanções atingiram fortemente o país. Estávamos em 2014 quando as coisas começaram a resvalar vertiginosamente. É bom recordar que final de 2014, esperava-se um colapso do país, da sua economia, do rublo, etc.

Vou dar um exemplo de um artigo que apareceu nessa altura no Observador, escrito por Edgar Caetano. Ele tem feito uns artigos interessantes, mostrando fontes, várias perspectivas, uns artigos equilibrados e em português.


Xeque-mate a Putin?

...Se, no início de 2014, o mundo se questionava até onde conseguiria ir a Rússia, depois da anexação da Crimeia, hoje a pergunta é outra: até onde pode cair um país – o maior do mundo – que está à beira do colapso?...

...Segundo Garry Kasparov, esta crise está a revelar as fragilidades de uma economia demasiado dependente dos petrodólares e de um sistema político nas mãos de um líder, Vladimir Putin...

...Nos últimos dias, pouco mudou além de o preço do petróleo ter furado alguns níveis psicologicamente relevantes. Foi o suficiente para instalar o medo nos mercados...

...“A Rússia está a viver uma crise cambial total”, diz Alexander Moseley, um gestor de carteiras da Schroders, em nota enviada ao Observador...

...“Putin navegou a onda dos preços elevados do petróleo nos anos depois de ter assumido o poder, mas não há dúvidas de que a economia em dificuldades está a começar a ter um impacto adverso na sua política...

...O Banco da Rússia já dissipou um quinto das respetivas reservas a tentar conter a queda do rublo nos últimos meses, sem obter sucesso duradouro até ao momento...



O ano de 2015 passou. E para supresa de muitos, o país não colapsou. Não colapsou, nem cedeu nas suas posições.

Apesar das condições económicas adversas, consegue ainda tomar a iniciativa na arena internacional. Em plena crise, toma uma atitude inédita, a entrada na Síria, para apoiar Assad e combater grupos terroristas. Um país, onde uma coligação liderado pelos os EUA, efectuava operações, eles entraram, e mudaram o curso da guerra que por lá anda.

De caminho, mostram a sua capacidade e os novos armamentos que possuem. De repente deixou-se falar das fracas capacidades militares convencionais russas. Muita gente dizia que só a componente nuclear salvava o país. Mas o que foi mostrado na Síria foi muito equipamento novo. A Rússia esteve a mostrar ao mundo, que mantém a sua capacidade de construir equipamento sofisticado. O know-how não foi perdido. 

Mas vamos focar o último parágrafo que marquei a verde. As notícias nessa altura saiam em catadupa, sobre a sangria que pairava sobre as reservas financeiras que o país possuía. Muitas previsões foram feitas, que àquele ritmo em pouco tempo, as reservas deixariam de existir. Vamos então, passado um ano, ver a evolução dessas reservas.



Se olharmos agora, que passou um ano, podemos ver o quanto eles perderam de reservas financeiras. Sensivelmente 5% das mesmas. Também posso fazer umas previsões..., a este ritmo daqui a 10 anos, ainda têm metade das reservas que tinham em 2014!

Como é que um país, tão sensível às flutuações dos preços energéticos e debaixo de sanções, consegue não meter as mãos nas suas poupanças? 

Talvez porque a sua dependência da venda de energia não seja assim tão grande como estão sempre a dizer?

Mais um dado interessante e que tenho acompanhado também por aqui. Com os problemas económicos, concerteza que pararam de investir no ouro, certo?

Errado.


A Rússia não deixou de comprar ouro. Também não começou a vender. Simplesmente continuou a acumular como se nada tivesse acontecido. A escalada é imparável e já tenho alguns artigos dedicados ao tema.

2014 tinha sido o ano em que a Rússia mais comprou ouro, 177 toneladas. Deixou de ser. 2015 sem os dados de Dezembro, já vai em 197 toneladas. Duma coisa não se livra, é o maior comprador de ouro no ano de 2015.

Como é que um país à beira do colapso económico, está a conseguir manter as suas reservas financeiras e continuar a comprar ouro como se não houvesse amanhã?

É claro que o país atravessa um panorama económico bastante adverso, mas se depende tanto da venda das matérias primas, como é que está a conseguir esta performance?

E se está a conseguir fazer isto nestas condições... o que fará com o barril novamente nos 100 dólares?

domingo, 10 de janeiro de 2016

Rússia Continua A Dominar O Sector Espacial


Agora com a entrada de um novo ano estou com ideias de fazer alguma reavaliações e vou começar por um que costumo dedicar atenção, ao sector espacial.

Apesar das sanções e da grande queda dos valores energéticos, a Rússia continua a dar cartas neste sector. E não podemos esquecer o que é dito até à exaustão, o país é um dependente da venda de matérias primas. É verdade. Mas apenas parcialmente. Não é um típico país exportador de matérias primas e esta parte parece sempre "esquecida".

Nos 87 lançamentos efectuados em 2015, A Rússia está em 1º lugar com 29 lançamentos, em 2º lugar os EUA com 20 lançamentos, em 3º lugar a China com 19 lançamentos e a Europa em 4º lugar com apenas 9.

Destaque algo que considero interessante. A Rússia falhou em 3 lançamentos, os EUA em 2 e surpreendentemente a China em 19 lançamentos, não falhou nenhum. A China está de facto a crescer nesta área.

Rússia

O novo cosmódromo tem previsto o 1º lançamento 
em Abril deste ano.

Penso que o que temos a destacar para 2016 é a abertura do novo cosmódromo, onde recentemente indicaram que está previsto o 1º lançamento para este ano. É um dos grandes projectos do país e que mostra a capacidade e o desejo de independência de terceiros. Será um marco a nível político, pois aumenta o prestígio do país e mostra as capacidades que possuem mesmo estando debaixo de sanções e com os problemas económicos amplamente conhecidos.

Rússia e EUA

Atlas V com um motor russo RD-180

Já dediquei artigos sobre a dependência americana dos motores russos, vou fazer uma breve passagem, para relembrar a importância do mesmo. Dos 19 lançamentos efectuados pelos os EUA, quase metade (9), só foram possível porque a Rússia lhes vendeu os motores para o Atlas V, ou seja, o Atlas V foi o foguetão mais usado pelos os EUA, mas este só voa com motores russos. Se a Rússia tivesse aplicado sanções aos EUA que impedisse a venda dos motores, é imaginar o impacto e prestígio do sector espacial americano.

Mas nem a Rússia aplica sanções nem os EUA param de comprar os motores russos. Em Dezembro passado voltam a fazer nova encomenda de mais 20 motores russos:

ULA Orders 20 More RD-180 Rocket Engines

United Launch Alliance, a joint venture of Lockheed Martin Corp. and Boeing Co. on Wednesday said it had ordered 20 more RD-180 rocket engines from Russia, on top of 29 engines ordered before Russia’s invasion of the Crimea region of Ukraine last year...

...The new order came days after the enactment of a massive U.S. spending bill that eased a ban on using Russian engines to launch U.S. military and intelligence satellites for fiscal 2016, which ends Sept. 30...

[Link]

Russian engine purchase adds to ULA’s Atlas 5 inventory

...Language inserted into the 2015 National Defense Authorization Act limited ULA’s use of RD-180 engines for future U.S. military launch competitions with SpaceX, outlawing engines that were paid for after Feb. 1, 2014...

...A clause in a U.S. government spending bill signed into law earlier this month effectively removed the RD-180 engine ban, stating that the Air Force could award launch contracts to any company certified to fly the Pentagon’s satellites, regardless of the country of origin of the rocket’s engines...


[Link]

O sector espacial dos EUA depende de uma nação hostil, baseada numa economia do petróleo. O que estará errado aqui...?

Rússia e Europa

Bom, na Europa temos também um envolvimento importante por parte da Rússia. Vou salientar 2 casos:

O sistema GPS Europeu. No mês passado, em Dezembro, dia 17, foram lançados mais 2 satélites na Guiana Francesa. E isto só foi possível, porque foi utilizado um foguetão russo. A coisa deve ser tão embaraçosa de referir, que não encontrei na imprensa portuguesa, uma referência a isto. Como explicar que o sistema GPS europeu, depende dos foguetões russos? Um país debaixo de sanções europeias. Sanções? Porque a Europa não aplicou sanções aos foguetões russos? pois é...

17 de Dezembro de 2015, lançamento do 11º e 12º satélite 
do sistema GPS Europeu, a bordo de uma nave russa, 
Soyuz.

Bom e quanto aos ingleses, que muito têm dito da Rússia, as inúmeras violações de espaço aéreo, etc, etc devem ter sido bastante mais rígidos na aplicação de sanções para fazer doer.

Ou talvez não.

Os ingleses estavam rejubilantes, em Dezembro assistiram à ida para Estação Espacial Internacional do seu primeiro astronauta. Mas isto só é possível graças à Rússia...

Comandante, cosmonauta russo, seguido do 
americano da NASA e 
por último, o astronauta britânico da ESA

O homem vai para a estação espacial numa nave russa, com um fato russo, onde o comandante é russo, vai entrar na estação espacial, pelo o segmento russo, enquanto lá está tem uma nave russa de emergência e vai voltar para terra, numa nave russa.

Se isto não é "dormir com o inimigo", não sei o que é...

Rússia e China

Também em Dezembro, novos acordos foram redigidos entre a Rússia e a China estreitando ainda mais os laços entre eles neste sector, com destaque para a cooperação nos sistemas GPS.

Resumindo, este é um sector onde a Rússia domina e mostra a enorme dependência que tanto os EUA como a Europa têm deles. Basta olhar, se a Rússia aplicasse sanções aos EUA e Europa, metade dos lançamentos americanos ficaria em terra, os satélites europeus ficavam no chão e o astronauta inglês passaria o Natal em casa.

EUA e Europa dependentes de um país que "só" tem petróleo para vender.

Se ninguém vê algo de errado nisto...

sábado, 2 de janeiro de 2016

China: A Próxima Jogada Do Dragão



A nova lei contra terrorismo da China que foi aprovada muito recentemente, contém na minha opinião um artigo bastante interessante no capítulo 7 dedicado à cooperação internacional. O artigo 71, abre a porta a missões no estrangeiro aos militares chineses.

...

Chapter VII: International Cooperation

...

Article 71:Upon reaching an agreement with relevant nations and reporting to the State Council for approval, the State Council Public Security Department and national security department may assign people to leave the country on counter-terrorism missions.

The Chinese People's Liberation Army and Chinese People's armed police forces may assign people to leave the country on counter-terrorism missions as approved by the central military commission.

...

Depois de acauteladas as respectivas permissões das nações relevantes, os militares podem partir. E isto é algo novo num ano de novidades. Não podemos esquecer que este ano assistimos à primeira missão chinesa ao abrigo das Nações Unidas no Sudão.



Contingente chinês para o Sudão

A China está de facto a ganhar experiência ao colocar tropas no estrangeiro da maneira mais suave que consegue. Uma missão de paz ao abrigo de uma missão das nações unidas, num país envolto em guerra há anos.

Esta colocação de tropas chinesas no Sudão tem outros propósitos. Não podemos esquecer que o Sudão é um dos mais importantes parceiros da China no Continente Africano, sendo o principal factor, o petróleo. Sempre o petróleo...

 
Contingente chinês para o Sudão

A China por este meio está a estabilizar um parceiro económico e a garantir que a sua produção de petróleo vá para o destino 'correcto'.

A China tem feito vários exercícios e de grande envergadura nos últimos anos. Muitos desses exercícios têm sido em conjunto com a Rússia. No ano passado as comemorações tanto na Rússia como na China tiveram como convidados contingentes militares russos e chineses a desfilar. Em Agosto deste ano, tivemos também um grande exercício no Mar do Japão, envolvendo a Marinha e a Força aérea de ambos.

Exercícios em conjunto

Mais, não podemos esquecer que em Maio de 2015 tivemos algo nunca visto, a marinha chinesa veio ao Mediterrâneo e Mar Negro para um exercício naval com a Rússia. Uma sinal político deveras significativo, dada a situação da Rússia, debaixo de sanções, a Ucrânia, etc.

Com esta nova lei que aprovaram, penso estarem reunidas as condições políticas (e não só) para avançar para um patamar acima. Após vários anos de exercícios em conjunto, após em 2015 colocarem o primeiro contingente militar numa zona de guerra, está na hora de aplicar os treinos em algo mais sério.

Eu penso que vamos possivelmente ver algo de muito inédito como o envolvimento da China na Síria. Por muito pouco pequeno que fosse a sua participação, a mensagem que iria dar ao mundo, iria ser enorme. A opção política de apoiar a Rússia na Síria, seria bastante importante para esta.

E não podemos esquecer que a China, também gostaria de suporte da Rússia, para os seus avanços nas ilhas artificiais que está a construir e que estão a 'aquecer' toda aquela zona.

Podemos ver num futuro muito próximo, a próxima jogada do Dragão.

Na Síria.

domingo, 29 de novembro de 2015

Guerras Energéticas: O Efeito Turquia







O abate do SU-24, veio trazer novas variáveis para a equação Síria já de si bastante complicada. A entrada da Rússia na Síria, deu um impulso muito significativo a Assad e é um sério revés a todos aqueles que procuram a saída de Assad.

Com a entrada da Rússia, o espaço aéreo passou a estar bem mais controlado favorecendo bastante Assad. As forças governamentais sírias, passam a ter protecção aérea e podem avançar com o apoio da força aérea russa que vai abrindo caminho.

A Rússia colocou uma pequena força, mas que se tem mostrada efectiva, com bombardeamentos diários. A maioria da sua força aérea é composto por vários tipo de bombardeiros e helicópteros. Existem apenas 4 caças e existe justificação para isso. Não existem ameaças aéreas. Tanto os rebeldes como o Estado Islâmico não possuem força aérea, o que existem sim são várias forças aéreas a operar no terreno, mas a guerra não é entre elas. Acordos foram estabelecidos entre as várias nações para não haverem incidentes.

Pelo o mesmo motivo, os sistemas anti-aéreos, são bastante limitados, com a função de proteger  a base onde estão instalados. Aumentar tanto os sistemas de defesa anti-aérea, como aumentar o número de caças, iria atrair as atenções e desconforto para as restantes nações que estão a operar no país. Seria difícil justificar sem ser conotado como um movimento agressivo por parte da Rússia, mostrando haver segundas e terceiras intenções por parte desta. E com isto não digo que todos os que estão na Síria não estejam com segundas e terceiras intenções. TODOS estão.


Protecção aérea da base, incluindo protecção naval


A Turquia que muitas intenções tem no que respeita a Síria, ficou bastante incomodada com a entrada dos russos na equação. A Rússia, coloca em cheque as pretensões turcas e resolveu ter uma infeliz ideia. Abater um avião russo quando este estava ocupado a bombardear posições na Síria, posições essas que estão ocupadas com facções que recebem apoio turco.

A Turquia ao fazer isto criou uma janela de oportunidade para a Rússia. Com o abate do seu avião, e a morte de um piloto atingido a descer de para-quedas, deu à Rússia a justificação de fazer uma entrada na Síria bem mais musculada.

Agora pode enviar um destacamento de caças  e colocar um forte dispositivo anti-aéreo. O envio foi imediato, enviaram o sistema mais moderno que possuem o S-400. Que permite controlar o espaço aéreo sírio, e uma boa parte do território território turco, chegando mesmo a Israel.
Área de cobertura do S-400

 Na foto, vários componentes do S-400 em posição

Agora, ficou bastante mais complicado remover Assad. A Rússia está entrincheirada na Síria e está em modo "agressivo" devido à actuação da Turquia. A infeliz opção dos rebeldes apoiados pela a Turquia, terem decidido abater o piloto enquanto este descia de para-quedas, permite aos russos arrasar a fronteira e desta vez não haverá caças turcos envolvidos.

A opção turca foi tão infeliz, que colocou meio mundo do lado da Rússia. Afinal esta está a combater os terroristas e esta maneira de abater aviões russos não é nada bonita. Os holofotes viraram-se para a Turquia. Parece que os valores democráticos estão meio tremidos no país, e parece haver uma relação demasiado próxima entre a Turquia e o Estado Islâmico.

Penso que estamos a assistir à viragem dos acontecimentos. A jogada turca, impediu os planos de haver um pipeline com origem no Qatar, que atravessa o Iraque e a Síria para chegar à Turquia e Europa. Com os russos no país, o plano cai por terra.

Neste momento, um outro pipeline, ganha força e possivelmente com a entrada em cena duma potência do calibre da Rússia, este pipeline irá ganhar. Os ganhos para os vencedores são imensos. Mas o palco da contenda é principalmente a Síria. À custa dos sírios.


  Este é o problema. A Síria é necessária nos dois pipelines. 
Necessário um governo amigável, para a parte vencedora

Este pipeline com origem no Irão, teve o anúncio da sua criação numa altura bastante interessante:

Iraq, Iran, Syria Sign $10 Billion Gas-Pipeline Deal

The oil ministers of Iraq, Iran and Syria Monday signed a preliminary agreement for a $10 billion natural-gas-pipeline deal, the official Iranian News Agency IRNA and other Iranian media reported.

Iranian oil officials said Syria would purchase between 20 million to 25 million cubic meters a day of Iranian gas. Iraq has already signed a deal with Tehran to purchase up to 25 million cubic meters a day to feed its power stations.

The project requires some $10 billion investment and will be constructed within three years, the semi-official Iranian news agency Mehr reported...

...The gas will be produced from the Iranian South Pars gas field in the Gulf, which Iran shares with Qatar, and holds estimated reserves of 16 trillion cubic meters of recoverable gas...


Estávamos em Julho de 2011, quando foi feito o anúncio. Previsto estar pronto para 2014/2015. Pouco tempo depois do anúncio feito, a guerra começa.

sábado, 21 de novembro de 2015

A Qualquer Hora, Em Qualquer Lugar


Maior bombardeiro supersónico do mundo TU-160, lança míssil de cruzeiro no 
Mediterrâneo, escoltado por um SU-30 vindo de base na Síria

O envolvimento da Rússia na Síria, tem vastas implicações. A Rússia está debaixo de sanções, enfrenta um clima económico adverso e no entanto está a demonstrar uma capacidade e determinação que estará a surpreender muita gente.

A Rússia tem mostrado que consegue manter uma base activa num local hostil com bombardeamentos diários e onde várias nações estão envolvidas com diferentes interesses. Desde que a Rússia chegou à Síria, o panorama mudou radicalmente. Neste momento as forças de Assad com o apoio da aviação russa, estão a ganhar terreno.

Mas não é só isso que estão a fazer. A Rússia está novamente a fazer um aviso á navegação. Não há país no mundo que esteja fora do alcance dos bombardeiros russos. É bom lembrar que quando a Rússia tentou abrir a base na Síria, a NATO tentou fechar o espaço aéreo circundante de modo a impedir que a aviação russa pudesse lá chegar. Com uma desagradável surpresa, os EUA descobriram, que não conseguiam "convencer" o Iraque a fechar o espaço aéreo aos russos, permitindo a estes levar mais rapidamente todo o material necessário para a base, em vez de estarem dependentes do transporte marítimo mais lento.

AN-124 - Maior avião de carga de mundo, só ultrapassado 
pelo o AN-225 (existe apenas 1 exemplar), preparando para 
levar a sua carga para a base na Síria

 Todo este material pôde chegar mais rapidamente, porque o Iraque 
abriu o seu espaço aéreo aos russos, apesar de pressionados pelos 
os americanos.

Ou seja neste momento, os bombardeiros russos de longo alcance, podem efectuar bombardeamentos na Síria, com autorização do Irão e do Iraque, principalmente deste último.

Mas, e se os EUA conseguissem "convencer" os iraquianos a fechar também o seu espaço aéreo? a resposta russa foi agora dada. Podem ter que atravessar meio mundo, mas nenhum país está longe de mais para os bombardeiros russos de longo alcance.


Algures no Mediterrâneo 

Rota usada pelos TU-160

tu-160

Os bombardeiros, voaram à volta da Europa, por todo o espaço da NATO, entraram no Mediterrâneo, lançaram os seus mísseis e passaram por cima da Síria, tendo o seu vôo ficado registado por fotos e vídeos por sírios.

A Rússia demonstrou que não precisa de autorização de ninguém para chegar onde quer e muito menos de países da NATO. 

E agora que bombardeiros armados e em missão passam ao lado de Portugal, não há notícias de F-16 a correr para interceptá-los.

Os TU-160, criados para um holocausto nuclear, tiveram o seu baptismo de fogo na Síria estando a criar um holocausto ao Estado Islâmico.

A qualquer hora, em qualquer lugar. Fomos avisados.

domingo, 1 de novembro de 2015

Aviso à Navegação: A Nova Armada Russa




A decisão por parte da Rússia de entrar no conflito da Síria em força, tem inúmeras ramificações. Serão necessários a meu ver alguns artigos para analisar alguns dos aspectos que considero cruciais, pois a Rússia, está  a demonstrar bastantes novas capacidades, com significativo impacto estratégico.

Este artigo será dedicado essencialmente a uma parte da modernização em curso da marinha russa. A frota do Mar Cáspio e a frota do Mar negro, sobre esta última já tenho alguns artigos dedicados.

As 3 novas corvetas russas que entraram ao serviço no Mar Cáspio no ano passado, são navios de pequenas dimensões, mais dedicadas a um controlo próximo do litoral, das fronteiras russas. Mas estas pequenas embarcações, algumas com menos de um ano em serviço, tiveram o seu baptismo de fogo. E apanhou muita gente desprevenida. Apesar de pequenas, conseguem influenciar numa zona a milhares de quilómetros.


Nova corveta Buyan-M, entrada em serviço em 2014

O lançamento dos 26 mísseis de cruzeiro, tiveram como origem o Mar Cáspio, recorrendo a 4 embarcações novas, uma fragata e 3 corvetas e um tipo de míssil novo.

Fragata, entrada ao serviço em 2012, corvetas em 2014, míssil em 2012


3M-14T - Entrada ao serviço em 2012
Opção de instalação do míssil num contentor, o que permite ser colocado 
na marinha mercante, para orçamentos mais apertados e não só.

O acto de disparar 26 mísseis de cruzeiro, a partir do Mar Cáspio, pretende transmitir vários avisos:

- Determinação russa nos seus objectivos.
- Capacidade em atingir alvos com precisão a 1500 km de distância.
- As novas embarcações e o novo míssil funcionam.
- O sistema GPS russo GLONASS, funciona.
- A integração de uma embarcação nova, com um míssil novo e um sistema GPS também novo, funciona e está demonstrada.
- Embarcações no Mar Cáspio e fora do alcance dos porta aviões americanos possuem a capacidade de afectar vários teatros de operações. Possuem capacidade de dar suporte às nova zonas de intervenção russa, Crimeia e Síria.
- Demonstração aos clientes e potenciais clientes da letalidade e precisão do armamento russo.
- Clientes russos com acesso a armamento disponível com sistema GPS. Monopólio americano quebrado. O "desligar" do sistema GPS deixa de ter importância, existe alternativa.
- Aviso a várias nações, que não estão tão longe assim das novas armas disponíveis.


Precisão GLONASS, correcções de rota, míssil e embarcações testadas

Ao apercebermos do poder de fogo destas pequenas embarcações, podemos agora ter uma ideia mais clara do significado do surgimento destas no Mar Negro. A Crimeia vai ter dentro de poucos dias, as duas primeiras corvetas Buyan-M para a frota do Mar Negro.

A Frota do Mar Negro vai receber ainda este ano duas corvetas Buyan-M

Juntamente com estas novas corvetas, a frota do Mar Negro, está a receber também este ano, novos submarinos com a capacidade de disparar os mesmos mísseis. Ficando o actual panorama neste mar com 3 novos submarinos e 2 novas corvetas. Esta evolução confirma o que já foi indicado num post anterior,  o fornecimento de 6 novos submarinos e 6 novas embarcações para esta frota.

 Isto em plena crise do preço do petróleo, sanções, rublo. E ainda compram ouro.

Quanto a estas novas embarcações ao contrário das que estão no Mar Cáspio, estas podem deslocar-se para o mediterrâneo. Aqui novos contornos se formam:


Apesar da proibição de sobrevoo em direcção à Síria, por vários países, todos membros da NATO, a Rússia conseguiu chegar à Síria, por mar e ar, e estas novas embarcações conseguem atingir qualquer país da NATO e conseguem envolver-se em países onde estão instalados interesses russos, ou seja, mais algumas peças para esta complicada equação. 


Os novos navios não vão andar sozinhos, principalmente numa zona cheio de embarcações NATO. Eles serão complementares ao que já existe e fornecem novas opções aos militares russos.

Frota russa no Mediterrâneo perto da Síria

Estamos a assistir em "directo" à modernização do arsenal russo. Os russos resolveram dar uma pequena amostra do potencial, mostrando os seus mais pequenos recursos que estão a ser construídos, os submarinos Kilo a diesel e as pequenas corvetas.

Um sinal do que aí vem e que também está a ser construído e a sair. Novos submarinos nucleares, novos mísseis nucleares, supersónicos e hipersónicos, novas embarcações de superfície, bem maiores e letais.

Num mar, perto de si.