terça-feira, 19 de abril de 2016

Guerras Energéticas: A Ordem Das Coisas



Andei aqui um bocado a brincar com "desenhos" para demonstrar o que estou a pensar. Afinal uma imagem vale por mil palavras.

E penso que neste momento é exactamente o que estamos a assistir.

                                                  EUA

Os Estados Unidos, que são um dos maiores produtores mundiais, aumentaram ainda mais a sua produção com o petróleo de xisto. De tal forma que se tornaram auto-sustentáveis e capazes até de exportar. Algo até aqui inédito.

Os EUA nesta matéria de exportação de energia são os "the new kid on the block", e claro vieram trazer complicações aos produtores que estão em cena. 

E assim se deu início a mais uma guerra energética. Onde todos são afectados, uns mais que outros.

Os EUA, o mais "novo" nestas andanças, gerou muitas expectativas com o revolucionário petróleo de xisto. Com as promessas de muito lucro e rápido, o que não faltou foi dinheiro para o investimento. Mas isto era para valores bem altos do preço do barril. Mas a Arábia Saudita não estava disposta a perder quota de mercado e tinha capacidade para criar séries dificuldades a outros fornecedores, especialmente novos e mais frágeis.

As empresas americanas endividaram-se e bastante, mas não haveria problema em pedir empréstimos, bem como a banca não teria problemas e fornecer empréstimos. O negocio da energia é muito lucrativo e isto prometia lucros e amortizações rápidas. Mas a coisa não correu como se esperava...




E actualmente a realidade é que os EUA já estão a diminuir a sua produção por não conseguir aguentar a pressão. Empresas estão a falir, o desemprego neste sector acelera, os bancos começam a ver dívidas incobráveis.

1) Empresas americanas já não conseguem manter o ritmo de produção, por falta de dinheiro.


U.S. shale output drop seen for 7th month running in May

U.S. shale oil production is expected to fall by a record amount in May in the seventh straight month of declines, a U.S. government forecast showed on Monday, as fallout from a 21-month price rout appears to be picking up steam.

Total output is seen dropping 114,000 barrels per day to 4.84 million bpd, according to the U.S. Energy Information Administration's (EIA) drilling productivity report. If correct, that would be the largest monthly decline since records were available in 2007...

http://www.reuters.com/article/us-usa-oil-productivity-idUSKCN0X82BR


2) Desemprego no sector acelera


U.S. oil job cuts reach about 118,000


...The latest round of layoffs, including recent cuts by Chevron Corp., BP and Anadarko Petroleum Corp., has brought oil-and-gas job cuts across the nation to nearly 118,000 since the beginning of 2015. That's more than one in every five workers the industry had when crude prices began to tumble, the Federal Reserve Bank of Dallas said Friday...

http://www.houstonchronicle.com/business/energy/article/Fed-U-S-oil-job-cuts-reach-about-118-000-7237605.php

3) Os Bancos

Os bancos estão metidos em mais um sarilho. Para quem andou a "vender" que o Xisto era a revolução e a solução para lucros chorudos, está agora metido num rico imbróglio.

Os bancos já não conseguem nem obter o capital que enterraram nestas companhias.


JP Morgan profit falls on US oil loans


JP Morgan Chase has reported a 6.7% drop in quarterly profits as it set aside more funds to cover potential losses at oil and gas companies.

US shale oil companies have come under increasing pressure in the past year as the price of oil has plummeted.
That has forced banks to raise the money they set aside to cover the possible failure of energy firms.

In February, JP Morgan said it would set aside an additional $500m (£357m) to cover potential losses from its exposure to the oil and gas sector.

http://www.bbc.com/news/business-36033113

Ou seja, o declínio só não é maior, porque ao fechar estas companhias, os bancos ainda perdiam mais. O que estamos a assistir é a expremer ao máximo os poços que foram abertos de modo a tentar recuperar o máximo de capital investido. Quanto os poços chegarem ao seu limite a empresa fecha, porque os bancos não vão financiar mais coisa nenhuma.

Assim vemos o destino dos produtores americanos com a jogada agressiva da Arábia Saudita.

Arábia Saudita


A Arábia Saudita de facto conseguiu colocar os produtores americanos em dificuldades e todos os restantes produtores incluindo eles próprios. Os gastos que o país tem actualmente, requerem um preço do crude a um patamar bem superior. E é isso que quero chamar a atenção, o país está a gastar muito e a pressão vai começar a aumentar à medida que as suas reservas vão baixando.

Olhando para este gráfico dá para ver o caminho que o país leva:



Os valores indicados vão até Novembro do ano passado. Abaixo dos 640 mil milhões. 100 mil milhões esturricados num ano. E a sangria continua. Os últimos dados do FMI mostram que em Fevereiro deste ano as reservas baixaram a linha dos 600 mil milhões, estando nos 592 mil milhões.

Daqui a urgência em estancar esta sangria. A Arábia Saudita pode cair na sua própria armadilha e colocar o reino em perigo. Simplesmente não vão ter dinheiro para pagar a todos.

A Arábia Saudita precisa agora de travar a produção. Mas sozinha não o consegue fazer. Principalmente devido a dois produtores. A Rússia que não pertence à OPEC e o Irão que embora pertencendo, estava debaixo de sanções.

Este dois produtores também querem aumentar o preço do barril, mas não estão tão necessitados quanto a Arábia Saudita. E ambos são aliados na Síria, exactamente do lado oposto da Arábia Saudita.

A Arábia Saudita está em guerra económica com a Rússia e o Irão. E está a perder.

Rússia

Olhemos para este gráfico onde mostra as reservas russas. Elas estão a subir. Uma clara diferença do caminho tomado pela a Arábia Saudita.

A Rússia mesmo com os preços actuais, está a conseguir aumentar as suas reservas. Eles estão a aumentar as reservas apesar do preço do barril e das sanções aplicadas.

A dependência russa do petróleo, não é tão acentuado, como toda a gente anda a dizer. Estes dois gráficos mostram que existe um país muito dependente do preço do petróleo e não é a Rússia... 




Por aqui podemos ver que as reuniões para reduzir/congelar a produção, não vão produzir os efeitos desejados pela a Arábia Saudita.

A Rússia pode discutir por mais um ano, se vão ou não congelar a produção. Daqui a um ano ao ritmo que os dois gráficos estão a ir, a Arábia Saudita estará a entrar na linha dos 400 mil milhões e a Rússia também. Só que um a descer e outro a subir.

Qual dos dois estará em pânico? fácil de deduzir...

Enquanto a Arábia Saudita resolveu entalar os produtores americanos, a Rússia resolveu entalar a Arábia Saudita e esta está a começar a sentir na pele o que os produtores americanos e respectiva banca estão a sentir.

Irão 

O Irão, está neste momento numa situação bastante interessante. A queda dos preços não tem um grande impacto, porque o país, não podia vender mesmo. Portanto qualquer venda agora, depois do levantamento das sanções é bem vinda.

Ao contrário da Arábia Saudita, o Irão tem vivido sem o dinheiro da venda do petróleo. Está numa excelente posição para exigir o que quiser e sem pressas.

O Irão vai aumentar a sua produção o que vai contribuir para acelerar os gastos das reservas financeiras da Arábia Saudita.

O Irão vai ganhar cada vez mais dinheiro, mais quota de mercado e verá o seu inimigo atolar-se em problemas.

A Arábia Saudita enfiou-se num buraco e agora não sabe como sair dele. 

A Arábia Saudita está a descobrir que há mais peixes no lago e alguns são maiores que ele...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Guerras Energéticas: Rússia Vs Arábia Saudita



A entrada musculada da Rússia na Síria, veio colocar um sério travão às sinistras ambições da Arábia Saudita e da Turquia. Com a Rússia presente no país, não será possível avançar com o pipeline previsto, com origem no Qatar e a acabar na Turquia (ver Guerras Energéticas: O Efeito Turquia). Muitos teriam a ganhar, a Turquia passaria a ser um importante Hub energético para a Europa, o Qatar teria um pipeline para a Turquia e Europa.

A Rússia alterou todo o panorama. Hoje, Assad está a ganhar terreno, devido à ferocidade dos bombardeamentos russos. E que pode fazer a Arábia Saudita? Muito pouco parece-me. Vejamos:

Arábia Saudita

Preço do Petróleo

A Arábia Saudita resolveu atacar a concorrência e inundou o mercado de petróleo. Ao fazer isso baixar drasticamente o preço, todos os produtores sentiram a pressão. uns mais, outros menos. Os produtores americanos estão com sérios problemas, e altamente endividados. Mas continuam a resistir. Em parte porque também os bancos que emprestaram o dinheiros a eles estão tentar não perder tudo o que investiram. Mas este ano, muito produtor vai falir nos EUA, ou seja a produção americana vai baixar.

Podemos dizer que está a ser uma aposta acertada da Arábia Saudita? No que diz respeito aos produtores americanos, mais frágeis neste mercado, parece ser. A Arábia Saudita tem reservas financeiras para aguentar estes valores, os produtores americanos só têm dívidas, e não há como pagá-las.

De caminho ataca um outro concorrente, este mais perigoso. A Rússia. A Rússia a braço com sanções ocidentais, viu a sua situação piorar com o crash do preço do petróleo. Mas...

Algo não bateu certo nas contas da Arábia Saudita. O erro foi considerar que a Rússia por esta altura estaria muito mais fraca. Mas isso não está a acontecer.

A Arábia Saudita esturricou, em 2015 muito dinheiro nesta aventura. Com um défice a rondar uns 15% do seu PIB (e estou a ser muito conservador neste valor). Está a sair perigosamente caro e têm uma guerra no Iémen a decorrer. O dinheiro está a sair da carteira tão rápido quanto o petróleo sai dos seus poços.

A Rússia mostra uma resiliência que não estava nos planos de ninguém. A perspectiva que se dava em 2015 era um colapso económico, mas tal não aconteceu.

Não aconteceu isso, mas aconteceu algo desagradável para os sauditas. A Rússia, acompanhou o aumento da produção, batendo records. A Rússia nunca produziu tanto. 

Russian oil output hits post-Soviet record high in December, 2015

Oil output in Russia, one of the world's largest producers, hit a post-Soviet high last month and in 2015 as small- and medium-sized energy companies cranked up the pumps despite falling crude prices, Energy Ministry data showed ...

Além de competir em termos de produção, também está a roubar quota de mercado no mais importador energético, a China.

Russia surpasses Saudi Arabia for third time in China crude supply

Russia overtook Saudi Arabia for the third time this year in November as China's largest crude oil supplier, customs data showed on Monday, as Russia captures fresh demand from China's new crude buyers...

Russia, which ramped up exports by 28 percent over the same period...

...Saudi crude is less appealing to China's new crude importers when compared to Russian grades, traders have said.

Cheaper freight costs for Russian crude versus suppliers from outside the Asia-Pacific region were also helping Russia boost its exports to China...


Ou seja, a Arábia Saudita ficou refém da sua própria estratégia. Actualmente, como se pode ver, a Arábia Saudita tenta fazer aumentar os preços para diminuir a sangria que corre nos seus cofres. E tenta convencer a Rússia a baixar a sua produção. E porque necessita que a Rússia baixe também a sua produção? Para a Rússia não roubar quota de mercado no maior importador energético, a China, como já está a fazê-lo.


Saudi Arabia, Russia to Freeze Oil Output Near Record Levels

Saudi Arabia and Russia agreed to freeze oil output at near-record levels, the first coordinated move by the world’s two largest producers to counter a slump that has pummeled economies, markets and companies.

While the deal is preliminary and doesn’t include Iran, it’s the first significant cooperation between OPEC and non-OPEC producers in 15 years and Saudi Arabia said it’s open to further action...


A Rússia não demonstra tanta urgência em fazer baixar os preços. Os baixos preços estão a afectar TODOS os produtores, uns mais, outros menos e como tenho chamado a atenção em artigos anteriores, a Rússia não está a ser tão afectada como a impressa andou a dizer em 2015.

Agora até saem notícias a confirmar a situação:

S&P cuts Saudi Arabia, Brazil, Oman, Kazakhstan, Bahrain, spares Russia

Rating agency Standard & Poor's downgraded Saudi Arabia, Brazil, Kazakhstan, Bahrain and Oman's credit ratings on Wednesday, in its second mass cut of large oil producers in almost exactly a year.

S&P cited the pressures being created by the drop in oil prices for the moves which included double-notch downgrades of Saudi Arabia to A- stable from A+ negative and stripping Bahrain of its investment grade status...

...One country that was spared this time was Russia...


...Like Saudi Arabia, Bahrain saw its rating cut two notches...

[Link]

Comparando com a Arábia Saudita, uma guerra energética entre estes dois, será fácil adivinhar o desfecho, dando uma olhadela aos défices anuais de cada um. A Arábia Saudita não consegue manter esta "velocidade" por muito tempo.

Como fica a Arábia Saudita agora? parece-me que numa situação extremamente delicada. O máximo que conseguiu arrancar dos russos, foi um congelamento da produção. Ora isto apenas irá permitir uma estabilização dos preços actuais. Algo com que a Arábia Saudita não pode viver muito tempo, dado os seus gastos actuais. Nem a Arábia Saudita, nem os novos produtores de xisto americanos.

Se a coisa está preta, ainda vai ficar pior. É que existe um grande produtor energético que tem estado debaixo de sanções e não tem estado a produzir a sua respectiva quota de mercado. Estamos a falar do Irão.

Agora que foram levantadas as sanções ao Irão, este pode passar a produzir normalmente. Só para se manter o actual preço de mercado, os restantes produtores terão que reduzir a sua quota, o que fará ainda ganhar menos.

Mas a perspectiva ainda fica pior para a Arábia Saudita. O Irão é um membro da OPEP. Se a OPEP quer manter pelo o menos os preços, terá que acomodar a produção do seu membro que estava debaixo de sanções. E qual o membro que mais tem produzido à custa do Irão todos estes anos? a Arábia Saudita.

Qual a opinião do Irão sobre congelamento da sua própria produção, estagnada no tempo devido a sanções?

Iran calls Saudi oil production freeze a 'joke'

Iran's oil minister Bijan Zangeneh on Tuesday called the Saudi Arabia-led idea for countries to freeze production a "joke," according to Iranian state broadcaster Press TV.

"The freeze is the beginning of a process," Saudi oil minister Ali al-Naimi said during a highly-anticipated speech on Tuesday at the IHS CERAWeek oil conference in Houston.

"Maybe not all of them, but most of the countries that count will freeze,"...

While Iran initially said it supported the output freeze, Zangeneh's comments on Tuesday suggest the country has no desire to join.

"This is more like a joke that they tell us they would freeze their production above 10 million barrels per day and that we should also in turn freeze our production at one million," the Iranian official said in Tehran...


Ou seja, o Irão já sinalizou que vai aumentar a sua produção. A Rússia disse que aceita congelar a produção desde que os outros o façam. Para manter os níveis de congelamento aceitáveis para a Rússia, a Arábia Saudita terá que reduzir, o equivalente à quota de mercado que o Irão tem direito. Ou seja, apenas para manter os preços actuais, já de si prejudiciais para a Arábia Saudita, estes vão ter que reduzir a sua produção, ou seja, vão vender ao mesmo preço, mas vão vender MENOS, logo ainda vão agravar mais a sua situação.

Como se a coisa não fosse mau o suficiente. A Rússia e Irão são aliadas na Síria e também são parceiros preferenciais da China. 

O  aumento de produção por parte do Irão, irá fortalecer este em detrimento da Arábia Saudita.

O tom beligerante da Arábia Saudita na Síria, com o anúncio de envio de milhares de soldados e equipamento para a Síria, coloca em directa colisão com a Rússia e Irão.

A Rússia é uma potencia mundial tanto em termos energéticos como em produção de armamento.

A Arábia Saudita só possui dinheiro para comprar armas a terceiros.

E o único trunfo deles (dinheiro) está a evaporar-se rapidamente.

A Arábia Saudita poderá ter cavado a sua própria cova.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sanções Europeias, O Preço A Pagar II



No artigo anterior  [Sanções Europeias, O Preço A Pagar], foquei o sector do leite, um sector com impacto significativo em Portugal, vamos agora focar um outro que está a ter também um impacto muito significativo e que vai sofrer ainda mais no futuro. O sector de suinicultura.

Este sector está a atravessar sérias dificuldades e quem está no ramo sabe a origem do problema:

Federação dos Suinicultores alerta para colapso eminente do setor

"Estamos hoje a atravessar a maior e mais dramática crise de sempre. O setor está à beira do colapso, estamos na iminência de perder nos próximos dias 50% da produção nacional e de lançar no desemprego centenas de famílias", avisou hoje no parlamento o vice-presidente da Federação, David Neves...

...A crise no setor já vem de trás, segundo a Federação, e deve-se a vários fatores, nomeadamente, "ao excesso de produção da União Europeia e ao embargo russo, que trouxeram problemas à produção nacional"...


Queda do preço da carne de porco resulta do embargo da Rússia

A Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) disse hoje que a redução de preços da carne de porco "resulta de uma conjuntura europeia desfavorável e que se tem acentuado ao longo do ano", respondendo assim às críticas dos suinicultores...

...Perante estas acusações, a APED, que representa os supermercados e hipermercados, alertou que a baixa de preços da carne de porco é uma situação que tem acontecido por toda a Europa e que uma das causas é o "embargo russo aos produtos europeus". 


A guerra das sanções, está a provocar baixas. E não só na Rússia. Como podemos observar, países mais pequenos como Portugal, vão sofrer mais que os grandes países europeus, também produtores. A nossa capacidade de reclamação é bastante limitada no contexto europeu.  

O que significa? que em vez de produzirmos, vamos ter que reduzir a produção e passar a viver de subsídios de compensação. Sermos pagos para nada fazer. Isto enquanto durar as sanções.

Enquanto durar as sanções? Não, esta história não vai ter um final feliz, para os produtores portugueses. A Europa vai ter mesmo que reduzir a sua produção. Portugal incluído. 

E porquê?

Porque a Rússia, com as sanções acabou por proteger o seu mercado e investir internamente. A Rússia vai passar a produzir tanto que vai deixar de importar e passar a exportar carne.

A Rússia era um cliente da carne europeia e agora vai passar a ser um concorrente. A Rússia passa a exportar carne.

É uma dupla machadada neste sector europeu. A Europa fornecia carne à Rússia. Agora além de perder um enorme cliente, vai assistir o cliente a passar a vender carne a outros clientes europeus.

Portugal vai perder empregos.

A Rússia vai ganhar empregos e muitos.

Putin Sparks Russia Pork Boom as Import Ban Expands Hog Breeding

Hog farmers in Russia are producing so much pork that they are selling it overseas just three years after the country was importing more of the meat than any other buyer except Japan.

Domestic output has increased 26 percent in four years to the highest yet, and imports have plunged by more than 80 percent from a peak in 2012, U.S. Department of Agriculture data show. The industry’s resurgence, which led to slumping hog prices from the U.S. to Germany, got some help from a Russian government increasingly uneasy about relying on foreign food supplies and its strained relationship with neighbors...

...Russia’s increasing self-reliance is contributing to a slump in global prices, according to the USDA. Hog futures traded in Chicago have fallen 26 percent since the start of 2015 to 59.8 cents a pound, while pig prices in Germany slumped in November to the lowest level since January 2011, according to industry group ISN. Cheaper pork may boost international trading in the meat in 2016, the USDA said...




Como o artigo da Bloomberg indica, a redução de importação de carne de porco, assistiu a uma redução de 80%.

O 2º maior importador mundial de carne de porco, vai passar a exportar. Os maiores mercados importadores de carne de porco, estão bem perto da Rússia. Japão, China e Coreia do Sul vão muito certamente passar a ser clientes russos em detrimento de exportadores como os Estados Unidos e Europa.

Os maiores exportadores de carne de porco são os EUA e Europa. Os EUA vendem em dólares, a Europa em euros.

A Rússia... toda gente sabe como está o valor do rublo. O custo de produção de carne de porco na Rússia é inferior, o que tornará as suas exportações muito competitivas.

Portugal... nós... estamos lixados. A corda rebenta sempre com os mais fracos. E já está a rebentar como se pode ver no sector do leite. O artigo que fiz no Verão de 2015, indicava o que aí vinha. E aí está, um artigo deste mês a indicar no rico sarilho em que estamos metidos.


Buraco orçamental de 300 milhões de euros dificulta 
obtenção de mais verbas para o leite

O ministro da Agricultura afirmou que encontrou um "buraco financeiro" de 300 milhões de euros no Programa de Desenvolvimento Rural (PDR), que pode condicionar as medidas para o setor do leite que pretende apresentar a Bruxelas...

...Governo anterior assumiu compromissos que excedem em 300 milhões de euros a dotação do programa, sendo necessário recorrer ao Orçamento do Estado nos próximos anos (OE), o que vai dificultar a alocação de verbas para um programa do leite, explicou...

[Link]

Não bebe leite? Não será desculpa para não o pagar. Agora todos vamos pagar o leite, pelas compras ou pelos os impostos. Se calhar será mais um enfiado no preço da gasolina...

Tudo em nome das sanções à Rússia. Que parece que está a sofrer imenso com isto.

Está a sofrer tanto com isso que a McDonalds, resolve abrir 60 restaurantes este ano. E como se isso não  bastasse, anunciam que vão passar a produzir tudo o que é necessário para os restaurantes no país.

Alguém está a pensar no que isto quer dizer? alguém está a fazer contas sobre a geração de emprego que está a ser feito no país?

Alguém está a pensar no efeito da guerra das sanções?

Com a queda do rublo, as empresas não podem importar que lhes sai caro e dado que a Rússia é um grande mercado, não pode ser negligenciado e passam a produzir localmente. Emprego destruído no exterior, como Portugal, e emprego gerado na Rússia.


McDonald's Is Making a Big Push in Russia This Year


McDonald’s plans to open more than 60 restaurants in Russia in 2016, increasing the pace of expansion from last year, after its focus on local suppliers and affordable menus has proved successful in an economic crisis...

...He said the company had to make “serious adjustments” to its business model after sanctions and the weakening of the rouble put pressure on its margins...

The development of local supply has played a big role in supporting our profitability,” he said on Monday.

In 2016, capital spending will focus on modernization and further investment in local supply as well as new openings.

Khasbulatov said the company hoped to achieve full localization, helping smooth out the impact of currency swings and Russia’s food import ban.


It’s important to localize not only food processing but also production,” he said...

[Link]

As sanções estão a prejudicar? estão.

Mas... estão a prejudicar quem?

sábado, 16 de janeiro de 2016

Um Breve Olhar Para A Economia Russa





O ano de 2015 passou. Está na hora de dar uma olhadela à economia russa, agora que saiu uns dados que estava a aguardar. O colapso do barril do petróleo e as sanções atingiram fortemente o país. Estávamos em 2014 quando as coisas começaram a resvalar vertiginosamente. É bom recordar que final de 2014, esperava-se um colapso do país, da sua economia, do rublo, etc.

Vou dar um exemplo de um artigo que apareceu nessa altura no Observador, escrito por Edgar Caetano. Ele tem feito uns artigos interessantes, mostrando fontes, várias perspectivas, uns artigos equilibrados e em português.


Xeque-mate a Putin?

...Se, no início de 2014, o mundo se questionava até onde conseguiria ir a Rússia, depois da anexação da Crimeia, hoje a pergunta é outra: até onde pode cair um país – o maior do mundo – que está à beira do colapso?...

...Segundo Garry Kasparov, esta crise está a revelar as fragilidades de uma economia demasiado dependente dos petrodólares e de um sistema político nas mãos de um líder, Vladimir Putin...

...Nos últimos dias, pouco mudou além de o preço do petróleo ter furado alguns níveis psicologicamente relevantes. Foi o suficiente para instalar o medo nos mercados...

...“A Rússia está a viver uma crise cambial total”, diz Alexander Moseley, um gestor de carteiras da Schroders, em nota enviada ao Observador...

...“Putin navegou a onda dos preços elevados do petróleo nos anos depois de ter assumido o poder, mas não há dúvidas de que a economia em dificuldades está a começar a ter um impacto adverso na sua política...

...O Banco da Rússia já dissipou um quinto das respetivas reservas a tentar conter a queda do rublo nos últimos meses, sem obter sucesso duradouro até ao momento...



O ano de 2015 passou. E para supresa de muitos, o país não colapsou. Não colapsou, nem cedeu nas suas posições.

Apesar das condições económicas adversas, consegue ainda tomar a iniciativa na arena internacional. Em plena crise, toma uma atitude inédita, a entrada na Síria, para apoiar Assad e combater grupos terroristas. Um país, onde uma coligação liderado pelos os EUA, efectuava operações, eles entraram, e mudaram o curso da guerra que por lá anda.

De caminho, mostram a sua capacidade e os novos armamentos que possuem. De repente deixou-se falar das fracas capacidades militares convencionais russas. Muita gente dizia que só a componente nuclear salvava o país. Mas o que foi mostrado na Síria foi muito equipamento novo. A Rússia esteve a mostrar ao mundo, que mantém a sua capacidade de construir equipamento sofisticado. O know-how não foi perdido. 

Mas vamos focar o último parágrafo que marquei a verde. As notícias nessa altura saiam em catadupa, sobre a sangria que pairava sobre as reservas financeiras que o país possuía. Muitas previsões foram feitas, que àquele ritmo em pouco tempo, as reservas deixariam de existir. Vamos então, passado um ano, ver a evolução dessas reservas.



Se olharmos agora, que passou um ano, podemos ver o quanto eles perderam de reservas financeiras. Sensivelmente 5% das mesmas. Também posso fazer umas previsões..., a este ritmo daqui a 10 anos, ainda têm metade das reservas que tinham em 2014!

Como é que um país, tão sensível às flutuações dos preços energéticos e debaixo de sanções, consegue não meter as mãos nas suas poupanças? 

Talvez porque a sua dependência da venda de energia não seja assim tão grande como estão sempre a dizer?

Mais um dado interessante e que tenho acompanhado também por aqui. Com os problemas económicos, concerteza que pararam de investir no ouro, certo?

Errado.


A Rússia não deixou de comprar ouro. Também não começou a vender. Simplesmente continuou a acumular como se nada tivesse acontecido. A escalada é imparável e já tenho alguns artigos dedicados ao tema.

2014 tinha sido o ano em que a Rússia mais comprou ouro, 177 toneladas. Deixou de ser. 2015 sem os dados de Dezembro, já vai em 197 toneladas. Duma coisa não se livra, é o maior comprador de ouro no ano de 2015.

Como é que um país à beira do colapso económico, está a conseguir manter as suas reservas financeiras e continuar a comprar ouro como se não houvesse amanhã?

É claro que o país atravessa um panorama económico bastante adverso, mas se depende tanto da venda das matérias primas, como é que está a conseguir esta performance?

E se está a conseguir fazer isto nestas condições... o que fará com o barril novamente nos 100 dólares?

domingo, 10 de janeiro de 2016

Rússia Continua A Dominar O Sector Espacial


Agora com a entrada de um novo ano estou com ideias de fazer alguma reavaliações e vou começar por um que costumo dedicar atenção, ao sector espacial.

Apesar das sanções e da grande queda dos valores energéticos, a Rússia continua a dar cartas neste sector. E não podemos esquecer o que é dito até à exaustão, o país é um dependente da venda de matérias primas. É verdade. Mas apenas parcialmente. Não é um típico país exportador de matérias primas e esta parte parece sempre "esquecida".

Nos 87 lançamentos efectuados em 2015, A Rússia está em 1º lugar com 29 lançamentos, em 2º lugar os EUA com 20 lançamentos, em 3º lugar a China com 19 lançamentos e a Europa em 4º lugar com apenas 9.

Destaque algo que considero interessante. A Rússia falhou em 3 lançamentos, os EUA em 2 e surpreendentemente a China em 19 lançamentos, não falhou nenhum. A China está de facto a crescer nesta área.

Rússia

O novo cosmódromo tem previsto o 1º lançamento 
em Abril deste ano.

Penso que o que temos a destacar para 2016 é a abertura do novo cosmódromo, onde recentemente indicaram que está previsto o 1º lançamento para este ano. É um dos grandes projectos do país e que mostra a capacidade e o desejo de independência de terceiros. Será um marco a nível político, pois aumenta o prestígio do país e mostra as capacidades que possuem mesmo estando debaixo de sanções e com os problemas económicos amplamente conhecidos.

Rússia e EUA

Atlas V com um motor russo RD-180

Já dediquei artigos sobre a dependência americana dos motores russos, vou fazer uma breve passagem, para relembrar a importância do mesmo. Dos 19 lançamentos efectuados pelos os EUA, quase metade (9), só foram possível porque a Rússia lhes vendeu os motores para o Atlas V, ou seja, o Atlas V foi o foguetão mais usado pelos os EUA, mas este só voa com motores russos. Se a Rússia tivesse aplicado sanções aos EUA que impedisse a venda dos motores, é imaginar o impacto e prestígio do sector espacial americano.

Mas nem a Rússia aplica sanções nem os EUA param de comprar os motores russos. Em Dezembro passado voltam a fazer nova encomenda de mais 20 motores russos:

ULA Orders 20 More RD-180 Rocket Engines

United Launch Alliance, a joint venture of Lockheed Martin Corp. and Boeing Co. on Wednesday said it had ordered 20 more RD-180 rocket engines from Russia, on top of 29 engines ordered before Russia’s invasion of the Crimea region of Ukraine last year...

...The new order came days after the enactment of a massive U.S. spending bill that eased a ban on using Russian engines to launch U.S. military and intelligence satellites for fiscal 2016, which ends Sept. 30...

[Link]

Russian engine purchase adds to ULA’s Atlas 5 inventory

...Language inserted into the 2015 National Defense Authorization Act limited ULA’s use of RD-180 engines for future U.S. military launch competitions with SpaceX, outlawing engines that were paid for after Feb. 1, 2014...

...A clause in a U.S. government spending bill signed into law earlier this month effectively removed the RD-180 engine ban, stating that the Air Force could award launch contracts to any company certified to fly the Pentagon’s satellites, regardless of the country of origin of the rocket’s engines...


[Link]

O sector espacial dos EUA depende de uma nação hostil, baseada numa economia do petróleo. O que estará errado aqui...?

Rússia e Europa

Bom, na Europa temos também um envolvimento importante por parte da Rússia. Vou salientar 2 casos:

O sistema GPS Europeu. No mês passado, em Dezembro, dia 17, foram lançados mais 2 satélites na Guiana Francesa. E isto só foi possível, porque foi utilizado um foguetão russo. A coisa deve ser tão embaraçosa de referir, que não encontrei na imprensa portuguesa, uma referência a isto. Como explicar que o sistema GPS europeu, depende dos foguetões russos? Um país debaixo de sanções europeias. Sanções? Porque a Europa não aplicou sanções aos foguetões russos? pois é...

17 de Dezembro de 2015, lançamento do 11º e 12º satélite 
do sistema GPS Europeu, a bordo de uma nave russa, 
Soyuz.

Bom e quanto aos ingleses, que muito têm dito da Rússia, as inúmeras violações de espaço aéreo, etc, etc devem ter sido bastante mais rígidos na aplicação de sanções para fazer doer.

Ou talvez não.

Os ingleses estavam rejubilantes, em Dezembro assistiram à ida para Estação Espacial Internacional do seu primeiro astronauta. Mas isto só é possível graças à Rússia...

Comandante, cosmonauta russo, seguido do 
americano da NASA e 
por último, o astronauta britânico da ESA

O homem vai para a estação espacial numa nave russa, com um fato russo, onde o comandante é russo, vai entrar na estação espacial, pelo o segmento russo, enquanto lá está tem uma nave russa de emergência e vai voltar para terra, numa nave russa.

Se isto não é "dormir com o inimigo", não sei o que é...

Rússia e China

Também em Dezembro, novos acordos foram redigidos entre a Rússia e a China estreitando ainda mais os laços entre eles neste sector, com destaque para a cooperação nos sistemas GPS.

Resumindo, este é um sector onde a Rússia domina e mostra a enorme dependência que tanto os EUA como a Europa têm deles. Basta olhar, se a Rússia aplicasse sanções aos EUA e Europa, metade dos lançamentos americanos ficaria em terra, os satélites europeus ficavam no chão e o astronauta inglês passaria o Natal em casa.

EUA e Europa dependentes de um país que "só" tem petróleo para vender.

Se ninguém vê algo de errado nisto...

sábado, 2 de janeiro de 2016

China: A Próxima Jogada Do Dragão



A nova lei contra terrorismo da China que foi aprovada muito recentemente, contém na minha opinião um artigo bastante interessante no capítulo 7 dedicado à cooperação internacional. O artigo 71, abre a porta a missões no estrangeiro aos militares chineses.

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Chapter VII: International Cooperation

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Article 71:Upon reaching an agreement with relevant nations and reporting to the State Council for approval, the State Council Public Security Department and national security department may assign people to leave the country on counter-terrorism missions.

The Chinese People's Liberation Army and Chinese People's armed police forces may assign people to leave the country on counter-terrorism missions as approved by the central military commission.

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Depois de acauteladas as respectivas permissões das nações relevantes, os militares podem partir. E isto é algo novo num ano de novidades. Não podemos esquecer que este ano assistimos à primeira missão chinesa ao abrigo das Nações Unidas no Sudão.



Contingente chinês para o Sudão

A China está de facto a ganhar experiência ao colocar tropas no estrangeiro da maneira mais suave que consegue. Uma missão de paz ao abrigo de uma missão das nações unidas, num país envolto em guerra há anos.

Esta colocação de tropas chinesas no Sudão tem outros propósitos. Não podemos esquecer que o Sudão é um dos mais importantes parceiros da China no Continente Africano, sendo o principal factor, o petróleo. Sempre o petróleo...

 
Contingente chinês para o Sudão

A China por este meio está a estabilizar um parceiro económico e a garantir que a sua produção de petróleo vá para o destino 'correcto'.

A China tem feito vários exercícios e de grande envergadura nos últimos anos. Muitos desses exercícios têm sido em conjunto com a Rússia. No ano passado as comemorações tanto na Rússia como na China tiveram como convidados contingentes militares russos e chineses a desfilar. Em Agosto deste ano, tivemos também um grande exercício no Mar do Japão, envolvendo a Marinha e a Força aérea de ambos.

Exercícios em conjunto

Mais, não podemos esquecer que em Maio de 2015 tivemos algo nunca visto, a marinha chinesa veio ao Mediterrâneo e Mar Negro para um exercício naval com a Rússia. Uma sinal político deveras significativo, dada a situação da Rússia, debaixo de sanções, a Ucrânia, etc.

Com esta nova lei que aprovaram, penso estarem reunidas as condições políticas (e não só) para avançar para um patamar acima. Após vários anos de exercícios em conjunto, após em 2015 colocarem o primeiro contingente militar numa zona de guerra, está na hora de aplicar os treinos em algo mais sério.

Eu penso que vamos possivelmente ver algo de muito inédito como o envolvimento da China na Síria. Por muito pouco pequeno que fosse a sua participação, a mensagem que iria dar ao mundo, iria ser enorme. A opção política de apoiar a Rússia na Síria, seria bastante importante para esta.

E não podemos esquecer que a China, também gostaria de suporte da Rússia, para os seus avanços nas ilhas artificiais que está a construir e que estão a 'aquecer' toda aquela zona.

Podemos ver num futuro muito próximo, a próxima jogada do Dragão.

Na Síria.