sábado, 19 de janeiro de 2019

A Nova Frota Russa

 
Navios GNL Classe Arc7
  
A nova frota russa a que me refiro, não é a nível militar, mas sim a nível civil. Temos visto as novas embarcações da marinha a disparar novos mísseis, mas a modernização do sector civil tem sido mais discreta, ou não chama tanto a atenção nas notícias.

Como já tinha referido anteriormente, Sines: Gás Americano Vs Gás Russo a Rússia está a fazer uma grande aposta no Gás Natural Líquido. Em 2016 tinha chamado a atenção para a encomenda aos estaleiros Sul-Coreanos de 15 novos navios únicos na sua capacidade de atravessar o mar gelado russo sem recurso a quebra-gelos, tendo nesse ano dado início à construção do primeiro, o Christophe de Margerie, que começou operações em 2017.
 
Neste momento, já conta com 10 navios destes, ou seja dois terços da encomenda, o que permite acelerar juntamente com o aumento da produção do GNL russo que ficou mais cedo disponível do que o previsto.

Este é mais um péssimo sinal para a entrada do GNL americano na Europa. Já não é uma questão de competir com o gás russo fornecido por pipeline, agora a Rússia consegue competir também no próprio fornecimento de GNL, o que arrasa por completo a tentativa de penetrar na Europa. Países europeus só vão adquirir gás americano por opções políticas e não por opções económicas.  Claro que esses países ao comprar energia mais cara, vão claramente ter problemas para competir com países que a compram mais barata.

Nitidamente a estratégia não assenta apenas em encomendar navios específicos para navegar em zonas cobertas por gelo.

A Rússia está a investir em estaleiros que possam construir esses mesmos barcos, como o estaleiro Zvezda.

Estaleiro Zvezda
 Este estaleiro deu início a uma grande modernização em 2015, tendo recebido guindastes de grande porte (2 de 100 T, 2 de 320 T e 1 de 1200 Toneladas), tornando-se no maior estaleiro civil do país, contando com 1500 trabalhadores, está previsto aumentar até aos 7000 e com isto a Rússia pretende a capacidade de construir domesticamente qualquer navio que o país necessite.
 
A comprovar esta estratégia temos as recentes encomendas que recebeu. No segundo semestre de 2018, teve um aumento de quase 50% de encomendas, com uma lista de 37 navios para construir, incluindo navios GNL Arc7 e petroleiros Aframax que até hoje só poderiam ser construídos no estrangeiro.

A estratégia é clara. Para garantir que os estaleiros vão estar sempre com encomendas, a Rússia pretende obrigar que só navios de construção russa  possam operar na nova rota que criaram e completamente controlada pelo o país. Se existem empresas que querem o gás russo, vão ter que o comprar e para o transportar terão também que encomendar a construção de navios russos.
 
Para garantir a viabilidade desta rota, novos quebra-gelos alguns com capacidade nuclear estão a ser encomendados, 3 dos novos quebra-gelos nucleares que estão prestes a surgir serão os maiores e mais potentes do mundo, conseguindo quebrar gelo com 3 metros de altura.
 
Projecto 222220 LK-60 Nuclear - O primeiro está previsto para este ano
 
Existem duas grandes passagens marítimas que ligam o mundo, o canal do Panamá e o canal do Suez, ambas debaixo do olhar atento da marinha dos EUA. A nova passagem que a Rússia está a criar, será completamente controlada por esta, não havendo hipótese para os porta-aviões americanos por lá andarem.
 
A Rússia apresenta-se como uma ligação terrestre, aérea e agora marítima que une o continente europeu ao continente asiático e tudo fora do controlo dos EUA.
 
A nova frota russa vai causar grandes estragos às pretensões globais que os EUA pretendem continuar a ter.


sábado, 24 de março de 2018

Mar (Russo) Mediterrâneo

Classe Kirov, maior navio existente (e de propulsão nuclear), esteve no Mediterrâneo,
escoltando o porta-aviões

Há 4 anos escrevi uns artigos que focavam as transformações no Mar (Russo) Negro / Mar (Russo) Negro II. Agora 4 anos depois, podemos confirmar que as mudanças se tornaram uma realidade e que a influência russa transbordou para o Mar seguinte, o Mar Mediterrâneo.

Apesar das sanções económicas, baixo preço do petróleo e queda do rublo, a Rússia conseguiu manter a sua estratégia e tornou-se mais audaz com a surpreendente entrada no conflito da Síria, demonstrando uma capacidade e confiança que era desconhecida até então.

Com a Síria sob protecção russa, esta passou a deter uma importante base no Mediterrâneo, que poderá albergar as novas embarcações que vão aparecendo a cada ano que passa. E como forma de demonstrar as novas capacidades de armamento russas, praticamente todas as novas embarcações que vão andar pelo o Mediterrâneo fizeram o seu baptismo de fogo, disparando mísseis de cruzeiro em direcção à Síria a partir do Mediterrâneo. 

As novas fragatas disparando para posições do estado islâmico na Síria

Fragatas novas duas entraram ao serviço em 2016 e uma em Dezembro do ano passado e mais uma será acrescentada em breve, ainda este ano.


Novas Corvetas Buyan-M a disparar a partir do Mar Cáspio para
posições do estado islâmico na Síria

Uma destas Corvetas está prestes a entrar ao serviço na frota do Mar Negro, tendo a frota do Cáspio já recebido 3 e a frota do Báltico duas.

Os novos submarinos disparando para posições do estado islâmico na Síria

A frota do Mar Negro recebeu 6 submarinos novos à velocidade de 2 por ano (2 em 2014, 2 em 2015 e 2 em 2016)

Desta forma, este mar banhado por vários países membros da NATO, assistem a um crescimento significativo da presença russa, onde todas as novas embarcações que chegam, levam consigo mísseis de cruzeiro com um alcance de mais de 2000 km, o que representa um novo desafio, pois a Rússia não possuía este tipo de capacidade na sua marinha e agora existe um potencial do território da NATO ser atingido a partir de novos locais. 

Como se isto não fosse bastasse a Rússia anunciou um novo tipo de míssil hipersónico que pode ser colocado também nas novas embarcações que saíram e ameaçam os porta-aviões e as suas frotas que se aproximam do Mediterrâneo.

Míssil hipersónico Zircon


Enquanto a impressa, perdia o seu tempo a brincar com o fumo que o porta-aviões produzia, deixou passar o mais  importante. Com fumo ou sem fumo, cumpriu a sua missão. E além de ter feito uma visita à Síria, a Rússia aproveitou para marcar a sua posição relativamente à Líbia, tendo recebido Haftar, um líder que não é patrocinado pelo o Ocidente com honras de estado, indicando que a Rússia tem uma outra visão para o futuro deste país.

Haftar a bordo do porta-aviões russo

A Rússia tem estabelecido laços cada vez mais fortes em países como o Egipto, a Argélia e Líbia onde se destaca as vendas de armamentos e negócios energéticos. 


O polémico Sistema Iskander-M foi entregue na Argélia, juntamente com um
grande pacote de armas russo sem a imprensa "dar" por isso

Com este panorama, a Rússia apesar de todo o criticismo do Ocidente, tem conseguido avançar e consolidar posições em países que banham este mar.


Países que banham o Mediterrâneo com uma significativa ligação com a
Rússia

Com a perspectiva de encaixar mais dinheiro com a venda dos recursos energéticos, a Rússia vai concerteza alargar a sua área de influência nesta zona do globo.




sábado, 23 de setembro de 2017

Gás Russo A Caminho Da Península Ibérica



Este é mais um artigo para alertar que o rumo das ligações energéticas entre a Europa e a Rússia não estão a divergir, mas sim a convergir. A Península Ibérica, uma zona europeia que não depende de gás russo, vai passar a depender dele a partir de 2018. A Espanha  fez um contrato por 25 anos para receber gás russo.

Mais de 10% do gás consumido em Espanha será russo. Esta situação mostra que estamos muito longe das teorias onde se equaciona uma menor dependência de gás russo, através de mais ligações com a Península Ibérica, dado que esta zona, não é (era) consumidor do gás russo.

Russian independent gas producer will start liquefied natural gas (LNG) supplies to Spanish energy company Gas Natural Fenosa in 2018, Interfax news agency quoted Novatek head Leonid Mikhelson as saying on Monday.

Novatek and Gas Natural Fenosa signed a long-term contract in 2013, which envisages LNG supplies from Novatek’s Yamal LNG project.

Mikhelson said on Monday that the 25-year contract with Fenosa which is worth more than 30 billion euros ($33.53 billion) was aimed to deliver 2.5 million tonnes of LNG per year to the Spanish partner, Interfax reported. 


Isto confirma a tendência, a Europa quer gás russo e a Rússia está a aproveitar todos os nichos de mercado disponíveis, mostrando o que já tenho referido várias vezes, a Rússia é considerada um fornecedor estável.

A acompanhar esta tendência temos dados já de 2017 que confirma o aumento dos consumos de vários países.

...Despite sanctions from both the U.S. and the EU, and Europe’s determination to reduce its reliance on Russian gas, Russia has been setting all-time highs in its exports throughout the past eight months. Although Gazprom has not yet surpassed its January 27, 2017 daily exports record of 636.4 MCm per day, it has been setting all-time summer season export records, with current gas flows oscillating within 580-590MCm per day levels... 


From January 1st to July,15th, 2017, the supply of the Russian gas to Turkey, South and South-Western Europe has increased. Thus, export to Turkey increased by 22% when compared with the same period of 2016.

Gazprom also noted that supplies of gas to Hungary grew by 26.6%, to Serbia by 47.9%, to Bulgaria — by 12.6% and to Greece — by 10%.

[Link]


Mapa de 2014 onde actualizei com os novos países
 clientes

O que isto mostra, além do crescimento das ligações com a Rússia, é que os EUA estão com sérios problemas para entrar na Europa o que significa ainda mais problemas para os seus produtores de gás que querem aumentar as exportações.

A Rússia só não está a acelerar ainda mais as exportações para a Europa devido às sanções e onde os EUA tem tentado por esta forma afectar as ligações nomeadamente no Nord Stream 2 entrando em rota de colisão com a Alemanha.

Penso que agora a seguir às eleições na Alemanha, esta vai mostrar aos EUA que estes não podem comprometer a segurança energética alemã e a Alemanha não pode ser tratada como um país qualquer que cede a pressões.

Ou seja, a própria atitude americana comprometeu a sua tentativa de impedir o aumento de mais gás russo para a Europa.

Agora com a entrada em Espanha, a Rússia mostra que consegue chegar a qualquer país Europeu, e a qualquer país do mundo, devido á sua aposta no mercado LNG, que começa agora a dar frutos, com várias implicações Geopolíticas.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Um Breve Olhar Para A Economia Russa II




Bem, vou  actualizar os dados da economia russa, para ver como se tem portado com os vários desafios que têm surgido. Não podemos esquecer que tem estado sob pressão em variadíssimas situações (Ucrânia, Crimeia, Síria, sanções, preço do petróleo, uma imprensa acutilante).

Eu já tinha feito um artigo no princípio do ano passado (Um Breve Olhar Para A Economia Russa), onde constava que a conversa dos problema económicos referidos na imprensa não estavam correctos. Agora quase ano e meio depois, podemos ver que eu estava certo, a economia russa está a a fortalecer e a acelerar.

Quanto à conversa que "toda" a gente sabe, sobre a Rússia ser um país completamente dependente do petróleo, vou colocar este gráfico para termos uma melhor perspectiva da coisa:


O petróleo entre 2015 e 2017 tem andado numa média de pouco mais de 40 dólares e no último ano podemos falar que ronda os 50 dólares. Podemos encontrar vários artigos ao longo dos tempos, que garantem que a Rússia não consegue sobreviver com o petróleo com estes valores.

Mas quem diz isso nunca recorre a dados concretos, porque senão teria que mostrar algo semelhante ao que vou mostrar.

Vamos começar pelas reservas financeiras. No post anterior tinha indicado que entre Dezembro de 2014 e Dezembro de 2015, a Rússia tinha apenas perdido 5% das suas reservas ao contrário do que se vendia por aí, ficando por uns 368 Mil Milhões de dólares.


Podemos ver neste gráfico actualizado até Maio de 2017 que as reservas têm estado a subir e passaram a barreira dos 400 Mil Milhões em Abril! Eles estão a conseguir acumular riqueza, apesar das sanções, do petróleo a 50 dólares, do "isolamento", dos investimentos (Tipo GLONASS, Ártico, ponte Crimeia, novo cosmódromo,  novo avião de passageiros MC-21, novos motores, novos pipelines, etc, etc)

Apesar de todos os gastos, eles estão a conseguir criar uma grande almofada financeira, no entanto sempre que se fala da Rússia, temos sempre alguém a falar dos seus problemas económicos.

Como se só isto não bastasse, temos ainda a questão do ouro, com tanta coisa, concerteza pararam de comprar ouro, pois o dinheiro não chega para tudo. ERRADO. Eles continuam a ser o maior comprador de ouro do mundo e não estão a abrandar por coisa  nenhuma. Excerto do anterior artigo para comparação (e tenho alguns posts dedicados ao ouro, para quem quiser ver melhor a coisa)

...2014 tinha sido o ano em que a Rússia mais comprou ouro, 177 toneladas. Deixou de ser. 2015 sem os dados de Dezembro, já vai em 197 toneladas. Duma coisa não se livra, é o maior comprador de ouro no ano de 2015...

Os dados até Maio indicam que já adquiriram este ano 97 toneladas, ou seja, se continuarem a este ritmo, este ano ultrapassam as 200 toneladas. A Rússia é um dos maiores detentores de ouro e é o maior comprador mundial, façanha que se tem repetido nos últimos anos.

O que se ouve falar na imprensa? Nos eternos problemas económicos da Rússia...



E quanto a isto do ouro e das sanções, mais um pormenor interessante que aqui registo:

Russian gold miner Polyus returns to London two years after delisting

Russia’s largest gold producer is to return to the London Stock Exchange, two years after delisting from the market...

...Polyus delisted from London in 2015 in the wake of tightening western sanctions on Russia...

...Last week a consortium led by Chinese investment group Fosun took a 10pc stake in Polyus, with the option to raise this to 15pc. The move marks one of the largest investments in Russia’s mining industry yet by the Chinese...


Estão a aparecer "rachas" nas sanções por todo o lado. A economia russa está bem mais resistente do que aquilo que nos dizem... 

domingo, 30 de abril de 2017

Europa Financia Rússia em 5 Mil Milhões

Nord Stream 2

Apesar da Rússia estar debaixo de sanções e existir hoje uma grande pressão para virar a opinião pública contra a Rússia, o facto é que a Europa continua a apostar nas ligações energéticas com este país, ao contrário do que tem vindo dizendo.

Hoje, o que "todos nós" sabemos é que a Europa procura diversificar os seus fornecedores de modo a diminuir a dependência da Rússia.

Mas como já tenho referido, não podemos olhar para o que dizem, temos que olhar para o que fazem.

O ano de 2016 foi o melhor ano para a Gazprom. Aumento de lucros e aumento dos volumes fornecidos à Europa. Isto debaixo de sanções e de "costas voltadas".

Gazprom’s gas exports to Europe hit a record in 2016

Russian state giant Gazprom’s gas exports to Europe hit a record in 2016, going up by 12.5% and falling slightly short of 180 billion cubic metres, the company’s CEO, Alexey Miller, has told Russian President Vladimir Putin during a meeting at the Kremlin.

Gazprom’s share in the European gas market added 3% in just over a year, reaching 34%, Miller was quoted as saying in a press release, posted on Gazprom’s website.

The highest growth in absolute terms was demonstrated by Gazprom’s number one market, our largest export market, Germany, which added 10%, or 4.5 billion cubic metres of gas. “We delivered 49.8 billion cubic metres of gas to Germany,” Miller said.


Apesar deste crescimento, o Nord Stream tem encontrado uma feroz resistência por parte da Polónia que tudo tem feito para impedir o aparecimento deste pipeline. Vários países europeus  liderados pela Alemanha, não têm estado nada satisfeitos com esta actuação polaca.

Poland and Ukraine to jointly oppose EU over Nord Stream 2, Opal

Poland and Ukraine plan to act jointly to block projects that could result in Russia's Gazprom gaining greater access to the European gas market by bypassing Ukraine

In October the European Union lifted a cap on Gazprom's use of the Opal pipeline which carries gas from the Nord Stream pipeline that crosses the Baltic Sea to end-users in Germany and the Czech Republic.

That decision opens the way for Russian plans to expand Nord Stream's capacity and bypass Ukraine as a gas transit route.

Poland, which imports most of the gas it consumes from Russia, immediately criticised the Commission's move saying it threatens gas supplies to central and eastern Europe.

...Analysts are sceptical though about Poland's and Ukraine's plans to stop Gazprom's expansion in Europe...

"These objections now remind me of those when Nord Stream 1 was built. I think the recent EU decisions show that the new gas link (NS2) will be built and no pressure or lawsuits will help," oil and gas expert Andrzej Szczesniak said, adding Poland and Ukraine cannot count on much backing from other parties.

"Business is business and politics is politics, but this is not well understood in Poland,"...


A pressão exercida pela UE (parte dela), fez com impedisse que um consórcio fosse formado com várias companhias europeias e a Gazprom, de modo a cada um ter uma percentagem do Nord Stream 2. Com isto atrasaram o financiamento do projecto, pois ficaria 100% a cargo da Gazprom e esta está com vários projectos em simultâneo.

Mas as necessidades energéticas da Europa, gritam mais forte e foi arranjado uma solução não parar os avanços do pipeline, as empresas não ficam com uma parte do projecto, mas avançam com o financiamento. O que mostra que existe bastante consensos, entre alguns países europeus e a Rússia, apesar de todo o ruído que existe na imprensa.

Países envolvidos:


  • França - Engie SA
  • Áustria - OMV AG
  • Holanda - Royal Dutch Shell PLC
  • Alemanha - Uniper SE
  • Alemanha - Wintershall Holding GMBh

  • O financiamento é de tal magnitude, que podemos ver por outra perspectiva. O financiamento europeu paga toda a intervenção militar na Síria!

    E pare reforçar esta ideia, temos a questão de que a UE declarou que não pode bloquear legalmente o pipeline dias antes. Apesar de todos os esforços dos polacos.


    Energy Firms' $5.1 Billion Financing for Russia Gas Pipeline Stokes EU Fears

    European energy firms pledged Monday to finance half the cost of a natural-gas link from Russia to Germany, lending support to a pipeline plan that is fueling tensions within the European Union.

    A consortium of five companies -- Engie SA, OMV AG, Royal Dutch Shell PLC, Uniper SE and Wintershall Holding GmbH -- said they would provide up to EUR4.75 billion ($5.1 billion) in long-term financing to Nord Stream 2 AG, a wholly owned subsidiary of Russia's state-owned PAO Gazprom...

    ...Monday's agreement follows the EU's admission last month that Brussels cannot legally block the proposed pipeline, which would be ready by the end of 2019. Nord Stream 2 would add another 55 billion cubic meters to annual gas flows to Germany, about 14% of the EU's yearly consumption.


    Vem aí uma factura pesadíssima para a Polónia e Ucrânia. A Ucrânia vai perder a capacidade de manter toda sua rede de pipelines funcional, pois não terá o dinheiro que recebe actualmente por ser um país de trânsito do gás.

    A Polónia como principal factor de bloqueio no aumento das ligações entre UE e Rússia, é bom que acelere a sua diversificação energética. Porque desconfio que os russos vão querer saldar umas contas... e a Alemanha também...


    domingo, 22 de maio de 2016

    Sines: Gás Americano Vs Gás Russo



    A chegada de um navio em finais de Abril com gás natural liquefeito americano a Sines, gerou várias notícias sobre o assunto. 

    Principalmente dois temas foram focadas neste notícia. O facto de a Europa ter recebido o primeiro carregamento vindo dos EUA e a questão da diminuição da dependência do gás russo, visto como um passo importante nesse sentido.

    Creole Spirit


    Gás de xisto norte-americano chega a Portugal


    Pouco mais de uma semana depois de partir dos EUA, o Creole Spirit chega a Sines. O navio transporta o equivalente a uma semana do consumo doméstico nacional. Portugal é o primeiro país europeu a comprar gás de xisto dos EUA...


    No jornal público saiu um artigo de opinião redigido pelo o embaixador americano que fala sobre o assunto, de onde retiro alguns excertos:

    Energia para os nossos aliados atlânticos, começando por Portugal

    A 27 de Abril, entrou no cais do porto de Sines um petroleiro com 295 metros de comprimento, chamado Creole Spirit, com um carregamento de gás natural liquefeito (GNL)...

    ...a entrega do Creole Spirit foi histórica, pois foi a primeira exportação de GNL dos EUA para a Europa. Por que é que isto é tão importante para a política global de energia?Passo a explicar.

    Quando cheguei a Portugal, em Abril de 2014, recordo-me de ter lido um artigo de opinião no Wall Street Journal da autoria do então Secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Bruno Maçães. O título era ousado: “Send a Message to Putin with a Trans-Atlantic Energy Pact”. À data em que foi publicado, a Rússia tinha acabado de violar o direito internacional e anexado a Crimeia. Apesar dos protestos de líderes dos EUA e da União Europeia, o Presidente Putin utilizava cada vez mais a energia como instrumento político para intimidar os países da Europa de Leste, dependentes da importação...

    ...A mensagem de Portugal para os Estados Unidos era clara: a Europa precisava de energia norte-americana e Portugal poderia ser a porta de entrada para o resto da Europa...

    Até ao início deste ano, a maior parte do gás natural dos EUA estava concentrado no mercado interno...

    ...Na verdade, foi apenas em Dezembro passado que o primeiro terminal de GNL nos EUA continental começou verdadeiramente a desenvolver as suas operações...


    ...E não é somente para a Europa que os EUA estão a exportar GNL. O primeiro carregamento de GNL a partir do continente norte-americano, no passado mês de Fevereiro, destinou-se à América do Sul...


    Não vou focar a componente estratégica que Sines representa para Portugal. Eu sempre achei e continuo a achar que Sines tem um potencial enorme para os interesses portugueses e pode constituir um ponto de entrada com muita importância para a Europa. Eu tenho vindo a assistir ao longos dos anos os investimentos feitos em Sines, e só posso concordar com a estratégia desenvolvida.

    O que quero focar é a questão do impacto da entrada  do gás americano na Europa e se é com a entrada deste fornecedor que a Europa vai de facto diminuir a sua dependência da Rússia.

    E não me parece.

    A própria escolha de Portugal, um país que não consome gás russo, já indica que a coisa não é como a mensagem que quer passar. Com vários países dependentes de gás russo e uns tantos são hostis à Rússia, fica muito estranho escolherem Portugal. Um país que nem pode passar essa energia para a restante Europa. O melhor que posso dizer é que é o país europeu mais perto para entrega do gás.

    Países europeus importadores de gás russo. Portugal
    não consome gás russo.

    Na perspectiva portuguesa podemos considerar que sim para os nossos interesses a diversificação é um facto e podemos receber energia de quem quer que seja.

    Portugal recebe gás maioritariamente da Nigéria e Argélia. E as coisas não têm andado bem com vários países produtores de energia. No caso da Argélia, que estando encostado à Líbia, tudo pode acontecer nos próximos tempos.

    Portanto o gás americano ameaça sim estes produtores, que possuem bons contractos com países europeus, mas a estabilidade política nos mesmos, obriga a países como Portugal a procurar alternativas.

    Quanto à Rússia...

    O caso pia mais fino. A Rússia é dos maiores produtores energéticos mundiais e o maior fornecedor da Europa. E enquanto a Europa anda há anos a gritar por diversificação e pouco faz por isso, a Rússia de facto está a investir fortemente na diversificação da sua carteira de clientes.

    A Rússia tem uma formidável rede de pipelines em direcção à Europa, onde ainda acrescentou o Nord Stream e possivelmente teremos no futuro o South Stream, porque eu considero que este pipeline mais tarde ou mais cedo, ele irá aparecer de novo.

    Mas os pipelines não são flexíveis, e são muito dependentes de jogos políticos. Como tal a Rússia começou também a investir no gás natural líquido.

    E enquanto a chegada do navio com gás americano foi amplamente anunciado por esse mundo fora, poucos dias depois um navio russo com gás russo entrou no Mediterrâneo para entregar ao Egipto.

    Russian Rosneft Marks Operational First With LNG Delivery To Egypt

    Rosneft Trading SA, a subsidiary of Russian state-owned Rosneft Group, delivered its first LNG cargo to the port of Ain Sukhna in Egypt, as part of a contract with Egyptian Natural Gas Holding Company, marking its first-ever LNG delivery.

    GOLAR ICE

    The delivery of the cargo was made by the GOLAR ICE tanker to the Ain Sukhna port, in the Suez province, in accordance with an August 2015 agreement...

    Ou seja, Portugal tanto poderia ter recebido gás americano, como gás russo. 

    Ou seja, a Rússia prepara-se para fornecer o seu gás a qualquer país europeu, onde os seus pipelines não chegam, como o caso de Portugal e Espanha, ameaçando todos os outros fornecedores concorrentes.

    E a aposta, é uma aposta séria. Basta ver nos investimentos que estão a fazer neste sentido, apesar das sanções, situação económica adversa, etc.


    Infraestruturas de GNL nos Estados Unidos


    Infraestruturas de GNL na Rússia

    Ou seja, a Rússia está a apostar forte neste segmento de mercado, o que é mau para os concorrentes já existentes e é pior para novos concorrentes como os EUA. Os EUA já estão a assistir a uma série de falências, e já não bastava a entrada do Irão no mercado, como vão ter que lutar agora com a entrada também da Rússia.

    A Rússia prepara-se para "atacar" qualquer parte do mundo, com o seu gás. Ou seja, vai deixar de estar dependente de pipelines com destinos fixos, para poder vender a quem quer que tenha um terminal capaz de receber gás líquido como o caso de Portugal.


    Rotas pelo o Ártico

    A Rússia para poder escoar o seu gás, vai usar rotas em mares gelados e para isso tem estado a encomendar navios específicos para a tarefa, num total de 15 encomendados.


    The Yamal LNG project has involved the construction of an LNG plant with a capacity of 16.5 million tonnes per year at the resource base of the Yuzhno-Tambeiskoe field, and creation of a corresponding unique transport and technological infrastructure for the year-round export of LNG to consumers. The LNG plant and export terminal were planned to be completed in 2017.

    In order to ensure safe year-round shipping of gas to the markets of the Asia-Pacific region and Western Europe, the operator of the Yamal LNG project plans to use a fleet of 15 LNG carriers, each with a cargo capacity of 172,600 cubic metres and with Arctic ice class (Arc 7). The time schedule for bringing the LNG plant to full operational capacity foresees the delivery of new vessels, from 2016 until 2020.


    Portanto a partir deste ano, vão começar as entregas e podemos confirmar o avanço da coisa:

    SCF Yamal launched

    The first Arc7 ice-class LNG carrier, SCF Yamal, was launched last week at the Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering (DSME) shipyard in South Korea.



    The 172,600-cbm vessel, which was ordered by Russia’s Sovcomflot to serve the Novatek-operated Yamal LNG project, will be the world’s first LNG carrier that can navigate through ice, according to DSME.

    The vessel is one of fifteen ice-class LNG newbuildings contracted to serve the giant Yamal LNG project in the Russian Arctic.

    Sovcomflot, MOL, Teekay and Dynagas have one, three, six and five vessels respectively, and all vessels are scheduled for delivery over the next four years.


    A Rússia prepara-se para entrar no mercado do gás natural líquido em força e vai poder chegar a todos os clientes, Portugal incluído.

    Os EUA que só agora começaram a exportar, além de sentirem a pressão dos produtores existentes, vão sentir muito em breve a pressão enorme que a Rússia vai fazer nos mercados mundiais. 

    terça-feira, 19 de abril de 2016

    Guerras Energéticas: A Ordem Das Coisas



    Andei aqui um bocado a brincar com "desenhos" para demonstrar o que estou a pensar. Afinal uma imagem vale por mil palavras.

    E penso que neste momento é exactamente o que estamos a assistir.

                                                      EUA

    Os Estados Unidos, que são um dos maiores produtores mundiais, aumentaram ainda mais a sua produção com o petróleo de xisto. De tal forma que se tornaram auto-sustentáveis e capazes até de exportar. Algo até aqui inédito.

    Os EUA nesta matéria de exportação de energia são os "the new kid on the block", e claro vieram trazer complicações aos produtores que estão em cena. 

    E assim se deu início a mais uma guerra energética. Onde todos são afectados, uns mais que outros.

    Os EUA, o mais "novo" nestas andanças, gerou muitas expectativas com o revolucionário petróleo de xisto. Com as promessas de muito lucro e rápido, o que não faltou foi dinheiro para o investimento. Mas isto era para valores bem altos do preço do barril. Mas a Arábia Saudita não estava disposta a perder quota de mercado e tinha capacidade para criar séries dificuldades a outros fornecedores, especialmente novos e mais frágeis.

    As empresas americanas endividaram-se e bastante, mas não haveria problema em pedir empréstimos, bem como a banca não teria problemas e fornecer empréstimos. O negocio da energia é muito lucrativo e isto prometia lucros e amortizações rápidas. Mas a coisa não correu como se esperava...




    E actualmente a realidade é que os EUA já estão a diminuir a sua produção por não conseguir aguentar a pressão. Empresas estão a falir, o desemprego neste sector acelera, os bancos começam a ver dívidas incobráveis.

    1) Empresas americanas já não conseguem manter o ritmo de produção, por falta de dinheiro.


    U.S. shale output drop seen for 7th month running in May

    U.S. shale oil production is expected to fall by a record amount in May in the seventh straight month of declines, a U.S. government forecast showed on Monday, as fallout from a 21-month price rout appears to be picking up steam.

    Total output is seen dropping 114,000 barrels per day to 4.84 million bpd, according to the U.S. Energy Information Administration's (EIA) drilling productivity report. If correct, that would be the largest monthly decline since records were available in 2007...

    http://www.reuters.com/article/us-usa-oil-productivity-idUSKCN0X82BR


    2) Desemprego no sector acelera


    U.S. oil job cuts reach about 118,000


    ...The latest round of layoffs, including recent cuts by Chevron Corp., BP and Anadarko Petroleum Corp., has brought oil-and-gas job cuts across the nation to nearly 118,000 since the beginning of 2015. That's more than one in every five workers the industry had when crude prices began to tumble, the Federal Reserve Bank of Dallas said Friday...

    http://www.houstonchronicle.com/business/energy/article/Fed-U-S-oil-job-cuts-reach-about-118-000-7237605.php

    3) Os Bancos

    Os bancos estão metidos em mais um sarilho. Para quem andou a "vender" que o Xisto era a revolução e a solução para lucros chorudos, está agora metido num rico imbróglio.

    Os bancos já não conseguem nem obter o capital que enterraram nestas companhias.


    JP Morgan profit falls on US oil loans


    JP Morgan Chase has reported a 6.7% drop in quarterly profits as it set aside more funds to cover potential losses at oil and gas companies.

    US shale oil companies have come under increasing pressure in the past year as the price of oil has plummeted.
    That has forced banks to raise the money they set aside to cover the possible failure of energy firms.

    In February, JP Morgan said it would set aside an additional $500m (£357m) to cover potential losses from its exposure to the oil and gas sector.

    http://www.bbc.com/news/business-36033113

    Ou seja, o declínio só não é maior, porque ao fechar estas companhias, os bancos ainda perdiam mais. O que estamos a assistir é a expremer ao máximo os poços que foram abertos de modo a tentar recuperar o máximo de capital investido. Quanto os poços chegarem ao seu limite a empresa fecha, porque os bancos não vão financiar mais coisa nenhuma.

    Assim vemos o destino dos produtores americanos com a jogada agressiva da Arábia Saudita.

    Arábia Saudita


    A Arábia Saudita de facto conseguiu colocar os produtores americanos em dificuldades e todos os restantes produtores incluindo eles próprios. Os gastos que o país tem actualmente, requerem um preço do crude a um patamar bem superior. E é isso que quero chamar a atenção, o país está a gastar muito e a pressão vai começar a aumentar à medida que as suas reservas vão baixando.

    Olhando para este gráfico dá para ver o caminho que o país leva:



    Os valores indicados vão até Novembro do ano passado. Abaixo dos 640 mil milhões. 100 mil milhões esturricados num ano. E a sangria continua. Os últimos dados do FMI mostram que em Fevereiro deste ano as reservas baixaram a linha dos 600 mil milhões, estando nos 592 mil milhões.

    Daqui a urgência em estancar esta sangria. A Arábia Saudita pode cair na sua própria armadilha e colocar o reino em perigo. Simplesmente não vão ter dinheiro para pagar a todos.

    A Arábia Saudita precisa agora de travar a produção. Mas sozinha não o consegue fazer. Principalmente devido a dois produtores. A Rússia que não pertence à OPEC e o Irão que embora pertencendo, estava debaixo de sanções.

    Este dois produtores também querem aumentar o preço do barril, mas não estão tão necessitados quanto a Arábia Saudita. E ambos são aliados na Síria, exactamente do lado oposto da Arábia Saudita.

    A Arábia Saudita está em guerra económica com a Rússia e o Irão. E está a perder.

    Rússia

    Olhemos para este gráfico onde mostra as reservas russas. Elas estão a subir. Uma clara diferença do caminho tomado pela a Arábia Saudita.

    A Rússia mesmo com os preços actuais, está a conseguir aumentar as suas reservas. Eles estão a aumentar as reservas apesar do preço do barril e das sanções aplicadas.

    A dependência russa do petróleo, não é tão acentuado, como toda a gente anda a dizer. Estes dois gráficos mostram que existe um país muito dependente do preço do petróleo e não é a Rússia... 




    Por aqui podemos ver que as reuniões para reduzir/congelar a produção, não vão produzir os efeitos desejados pela a Arábia Saudita.

    A Rússia pode discutir por mais um ano, se vão ou não congelar a produção. Daqui a um ano ao ritmo que os dois gráficos estão a ir, a Arábia Saudita estará a entrar na linha dos 400 mil milhões e a Rússia também. Só que um a descer e outro a subir.

    Qual dos dois estará em pânico? fácil de deduzir...

    Enquanto a Arábia Saudita resolveu entalar os produtores americanos, a Rússia resolveu entalar a Arábia Saudita e esta está a começar a sentir na pele o que os produtores americanos e respectiva banca estão a sentir.

    Irão 

    O Irão, está neste momento numa situação bastante interessante. A queda dos preços não tem um grande impacto, porque o país, não podia vender mesmo. Portanto qualquer venda agora, depois do levantamento das sanções é bem vinda.

    Ao contrário da Arábia Saudita, o Irão tem vivido sem o dinheiro da venda do petróleo. Está numa excelente posição para exigir o que quiser e sem pressas.

    O Irão vai aumentar a sua produção o que vai contribuir para acelerar os gastos das reservas financeiras da Arábia Saudita.

    O Irão vai ganhar cada vez mais dinheiro, mais quota de mercado e verá o seu inimigo atolar-se em problemas.

    A Arábia Saudita enfiou-se num buraco e agora não sabe como sair dele. 

    A Arábia Saudita está a descobrir que há mais peixes no lago e alguns são maiores que ele...