terça-feira, 7 de julho de 2015

Europa Aumenta Dependência Energética Da Rússia II




Este artigo é uma continuação do artigo anterior e que foca o aumento da dependência da energia russa (Europa Aumenta Dependência Energética Da Rússia), o tema foi o Reino Unido, agora será a Alemanha.

A Alemanha, o motor da Europa, possui algo de muito valioso, um pipeline directo (Nord Stream) para o maior fornecedor energético do mundo,  a Rússia.

Quando foi acordado este pipeline, foi uma surpresa bastante desagradável para os países Bálticos e a Polónia. As relações destes países e a Rússia, não são nada boas, mas tinham uma segurança, para a energia russa chegar à Alemanha, tinham que passar por vários países trânsitos, estando a Polónia salvaguardada, podendo ter o seu quinhão de energia.


A decisão da Alemanha abandonar o nuclear, significou também a decisão de tornar-se mais dependente da energia russa, ou seja, as ligações entre a Rússia e Alemanha, teriam tendência a aumentar, algo que a Polónia nunca viu com bons olhos.

Alguns acontecimentos importantes, fizerem mudar a estratégia russa. O avançar da NATO para mais perto das fronteiras russas, gerou uma série de problemas com países candidatos à NATO, mas que ainda não tinham conseguido aderir. Neste caso a Ucrânia e a Geórgia. A Rússia não queria que estes países fossem para um bloco militar hostil.

Para agravar a situação, foi a decisão de basear o novo sistema antí-míssil na Polónia e Republica Checa. Agora já não era apenas o perigo da NATO, crescer um pouco mais. Agora os EUA, estavam a tentar diminuir a capacidade ofensiva nuclear da Rússia, colocando em perigo o equilibrio nuclear entre ambos.

Na minha opinião, foi devido a estes pontos que se decidiu eliminar os problemas dos países trânsito e diversificar as rotas energéticas. Com esta decisão, a Rússia aumenta a sua pressão sobre os países hostis/problemáticos sem prejudicar os países com que tem (e desja manter) boas relações.

Criando o Nord Stream, a Rússia diminui a sua dependência da Ucrânia, como país de trânsito e vai poder fornecer a Alemanha, mesmo que decida não vender energia à Polónia. Daí o grande alvoroço que os polacos tiveram com o acordo alcançado entre a Alemanha e Rússia. Se o pipeline tivesse ido para aprovação da UE, este não teria sido aprovado, vários países hostis à Rússia, mas dependentes da energia desta, nunca o teriam permitido. Mas estamos a falar da Alemanha.

Mas isto foi há uns anos e agora a realidade é outra, estamos a falar do periodo pós Ucrânia, tal como a conheciamos, a UE uma vez mais clama, por reduzirmos a dependência da energia russa. Conseguiu lançar o caos no South Stream, tudo aponta para deixarmos de depender da energia russa.

Pelo menos é assim que se fala, tanto pelos os políticos como pela a imprensa. Mas volto a insistir que devemos ver as coisas, não pelo o que se diz, mas sim pelo o que se faz. E o que se faz?

A Alemanha voltou a fazer novo acordo com a Rússia e o Nord Stream vai duplicar a sua capacidade. Ou seja, a Alemanha mostra algo contrário ao que se diz, a Alemanha considera a Rússia um fornecedor fiável e deu a à Rússia, um significativo aumento na capacidade política de fazer pressão a um outro membro da UE, bastante activo na situação ucraniana, ou seja, a Polónia. A Polónia que se tornou deveras hostil devido à situação do sistema anti-míssil, vai ter um grave problema de fornecimento energético.

Como se não bastasse a sua dependência de gás russo, a Alemanha aumenta também a sua dependência do carvão russo. Isto em pleno período de sanções económicas!

Germany Buys Most Russian Coal Since 2006 to Diversify

Germany imported the most coal from Russia in at least nine years, just as the European Union is trying to reduce its reliance on energy supplies from the former Soviet state.

Russian coal imports rose 6.6 percent to 12.6 million metric tons last year, according to data from the Federal Statistics Office in Wiesbaden, Germany. That’s more than a quarter of all foreign purchases. Total imports into Europe’s biggest economy also rose to their highest level since 2006...


Esta situação mostra claramente, que as relações entre importantes países europeus e a Rússia, não estão tão más como podem parecer. Infelizmente interesses externos estão a colocar muitos grãos de areia na engrenagem da relação Europa-Rússia.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Rússia E Paquistão, Uma Surpreendente Evolução






Vamos falar de um país, onde até há relativamente pouco tempo seria impensável haver tal tipo de aproximação. O Paquistão, nos tempos da guerra fria, estava do outro lado da barricada e a sua influência na guerra do Afeganistão, não pode ser ignorada.

Entretanto, o passado foi ficando um pouco para trás e a realidade geopolítica de hoje é significativamente diferente e infelizmente também o comportamento Europeu está a dar um importante empurrão na construção da nova política externa russa.

Vamos então focar alguns pontos que acho bastante interessantes.

Estávamos em Outubro de 2013, quando pela primeira vez um navio da marinha paquistanesa visita um porto russo:


Visita feita a um porto no Mar Negro



Meses depois, em Abril de 2014, seguiu-se uma visita da marinha russa a um porto paquistanês:






Uma segunda visita é feita pela marinha russa em Outubro de 2014, um ano depois da primeira visita feito pelos os paquistaneses, com a realização de exercícios conjuntos demonstrando uma aproximação entre as duas nações.

Se dúvidas existe nas crescentes ligações entre ambos, elas dissipam-se com um acontecimento bastante interessante, o levantamento do embargo de armas em 2014:

Russia lifts embargo on weapons supplies to Pakistan


Russia has lifted an embargo from supplies of weapons and military hardware to Pakistan and is negotiating the delivery of several helicopter gunships Mil Mi-25 to the country...

[Link]

Ou seja o ano de 2014, não foi só a questão ucraniana, a Crimeia, as sanções económicas, a queda do rublo, os acordos com a China, etc.

Em simultâneo a Rússia está deveras activa na sua política externa a nível global, estreitando ligações com países como o Paquistão e mostrando ao mundo que apesar de todas as pressões colocadas em si, continua com poder de iniciativa.

Com o levantamento do embargo, começamos a ver algumas das coisas que o Paquistão quer e o que a Rússia está disposta a vender, nesta nova amizade. Uma delas é o interesse no helicóptero de ataque MI-35, mas o que considero significativo é relativamente ao caça paquistanês JF-17.


Helicóptero russo - MI-35


Caça paquistanês - JF-17

O caça JF-17 concebido pela China/Paquistão, utiliza um motor russo, o RD-93. A China tem encomendado o motor à Rússia e entregue ao Paquistão.


Airshow China 2014: Russia to supply China with more RD-93 turbofans

Russia is to supply China with an additional batch of 100 Klimov RD-93 turbofan engines for the FC-1/JF-17 Thunder combat aircraft before the end of 2016...

...A joint venture between China and Pakistan, the JF-17 is currently only in Pakistan Air Force service...

...The first contract for 100 RD-93s had an option for 400 more, which will be produced by Moscow-based machine-building plant Chernyshev, a division of the United Engines Corporation (UEC)...


...Under UEC's existing contract with CATIC the Russian company is to perform deliveries, designer supervision, maintenance, refurbishment, and assistance in organising the RD-93 overhaul for basic and export FC-1/JF-17 fighters.

[Link]

Ou seja, a Rússia tem estado ocupada a produzir os motores para o novo caça paquistanês. E o Paquistão tem consciência da sua dependência na Rússia, para ter os seus caças a voar, apesar de os estar a receber a partir da China.

Dado o aquecimento das relações entre o Paquistão e a Rússia e sendo a Rússia e a China parceiros em vários sectores, a evolução natural seria a Rússia fornecer directamente os motores ao Paquistão. E de facto parece que é para aí que caminhamos.

Estamos em 2015 e as notícias confirmam esta evolução.


Pakistan: JF-17 engine straight from Russia

Motor russo - RD-93

Pakistan is set to import the JF-17 Thunder’s RD-93  engine directly from Russia in the near future. Earlier, the engines were purchased from China, which in turn resourced the RD-93 from Russia. According to sources in Pakistan, China has now issued a ‘no objection certificate’ that allows Pakistan to do business directly with Russia...


...With current Western economic sanctions against Russia over the situation in Ukraine, it is safe to say Russia seized this export opportunity to Pakistan.

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Um país, ter os seus aviões dependentes de motores russos é algo de muito significativo e sendo o Paquistão, tem ainda mais relevância devido à grande ligação existente entre a Rússia e a Índia. Sendo a Índia, um dos mais importantes parceiros militares, um grande cliente de armamento russo, ao ponto de conseguir alugar submarinos nucleares, assiste com grande apreensão a este estreitamento de ligações com o Paquistão.

E aqui a Rússia, volta a mostrar a sua capacidade na arena geopolítica. A Índia tem nos últimos anos, diversificado os seus fornecedores, onde se destaca uma grande aproximação com os Estados Unidos, tendo começado a comprar material de envergadura.

A Rússia está a mostrar também à India, que possui a capacidade de vender a outros nomeadamente o Paquistão. E a Rússia só levantou o embargo de armas, após a India ter começado a comprar em grande escala aos EUA.

India becomes biggest foreign buyer of US weapons

C-17

P-8

India imported $1.9bn of military kit from the US last year, making it the biggest foreign buyer of US weapons, according to research from IHS Jane’s.


The US, which remained the largest exporter of military equipment, displaced Russia as India’s biggest arms supplier. In total, the US exported $25.2bn of military equipment in 2013, compared with $24.9bn the previous year.

[Link]

Com isto parece-me que o aviso está feito, a Rússia irá vender ao Paquistão, algo equivalente ao que os EUA fornecem à Índia, olho por olho, dente por dente.

Agora se adicionarmos a isto, uma ligação energética, estaremos então a assistir a uma importante reviravolta nesta zona do globo.

Em 2015, em plena crise com o Ocidente e sofrendo de sanções económicas, a Rússia avança com novas ligações energéticas desta vez com o Paquistão e ainda tem fôlego para investimentos:

Russia to Finance a $2 Billion LNG Pipeline in Pakistan




New pipeline represents the first infrastructure deal between the two countries since the 1970s

Pakistan is expected to sign an agreement with Russia for the construction of a 1,100 km (about 684 mile) liquefied natural gas (LNG) pipeline from Karachi in southern Pakistan to Lahore in the North. Under the partnership, Russia will provide $2 billion to lay the pipeline, and in exchange Pakistan will award the contract to Russia without inviting bids, reports The Express Tribune.

We are trying to sign an LNG pipeline accord with Russia in a government-to-government arrangement during the visit of Prime Minister [Nawaz Sharif] to Moscow,” Peroleum Minister Shahid Khaqan Abbasi said. Prime Minister Sharif is expected in the Russian capital July 9, to attend a summit of the Shanghai Cooperation Organization (SCO).

In addition to financing the pipeline, Russia agreed to export LNG to Pakistan, which has suffered from energy shortages...

[Link]

Esta questão do fornecimento energético ao Paquistão, merece no futuro uma análise mais detalhada, englobada na estratégia de fornecimento de energia para o mercado Asiático. Mas o que estamos a ver aqui é uma das consequências da diversificação da carteira de clientes de energia russa, o que demonstra o perigo crescente para a Europa. A Rússia está a diversificar mais depressa a sua carteira de clientes, do que a Europa a sua carteira de fornecedores.

Como já tenho dito, a Rússia prepara-se para escolher para que países europeus quer vender a sua energia e vai ser uma descoberta muito desagradável para a Europa como um todo, verificar que o seu maior e mais importante fornecedor energético, já não depende de nós, europeus para vender a sua energia. E por nossa culpa.

domingo, 7 de junho de 2015

China E Rússia: Mais Um Passo Para A Guerra Económica





Nos últimos anos, todos passámos a conhecer, devido às recorrentes crises económicas que foram ocorrendo a nível global, as agências de rating. As agências de rating tem sído alvo de críticas pois muitas das suas análises e ratings são consideradas no mínimo estranhas, para um sem número de pessoas, de empresas, de países e de uniões de países.

Quem já não criticou, ou ouviu criticar, sobre uma atribuição de rating fornecida por uma das principais agências?

A situação subiu de tom, quando as agências começaram a "atacar" várias países da União Europeia. As suspeitas começaram a ouvir-se mais alto, estas agências parecem atacar tudo, tudo, excepto o que seja americano.


As 3 grandes agências (Moody's ; Standard & Poor's ; Fitch Ratings), detêm o controlo de atribuição de ratings e são americanas. Quando começaram a fazer atribuições bastante negativas a vários países europeus (incluindo Portugal), fazendo tremer os alicerces da União Europeia, esta resolveu agir.

A Europa decidiu criar uma agência de rating europeia, que rivalizasse com as 3 dominantes, de modo a diminuir a importância e o impacto das suas avaliações nesta zona do globo.

Hoje, podemos dizer que essa intenção falhou. Penso que a maior parte das pessoas se lembra das notícias que saíram sensivelmente em 2012, sobre a possibilidade de agência aparecer, o facto é que estamos em 2015 e o assunto caiu no esquecimento.

É difícil lutar contra os 3 grandes, sabendo o quanto estas podem prejudicar, a quem precise de financiamentos de envergadura. O receio de represálias, as pressões americanas, arrefeceram os ímpetos europeus no desafio que se propunha fazer.

É de facto complicado. Os EUA têm as agências de rating, têm o FMI, o Banco Mundial, e a moeda que circula no globo é o dólar. Os EUA detêm o controlo económico e militar a nível global e são muito poucos os que se atrevem a atravessar o seu caminho.

É aqui que entra a nova agência de rating. Esta na minha opinião tem mais pernas para andar, mas também é a mais perigosa, para o actual sistema em vigor. A nova agência de rating tem o potencial de quebrar o monopólio das agências americanas. E os países que a suportam, têm a capacidade financeira e militar para impedir determinado tipo de pressões que os EUA são capazes de fazer a tudo o que lhes ameace a sua supremacia global.




A China e a Rússia decidiram avançar com uma agência de rating. E estão a falar a sério.

Estávamos no ano de 2013, quando:

Hong Kong-based credit rating agency launched to challenge 'Big Three'

A new credit rating agency backed by Chinese, Russian and American firms has launched today in Hong Kong, with a mission to displace the "Big Three" Western firms at the heart of the international ratings system. 

The joint venture, the Universal Credit Rating Group (UCRG), says it intends to reform the current international credit rating regime, creating the initial framework for a new system by 2020, with the ability to provide credit risk information on all the world's economies by 2025.

Beijing-based Dagong Global Credit Rating, Russia's RusRating and U.S.-based agency Egan-Jones Ratings are behind the project, which they consider part of a necessary overhaul of a system whose failings contributed to the 2008 global financial crisis...


Este é um artigo da CNN,  um órgão de informação americano e que dá esta notícia, calculando que algo aparecerá em 2020.

Vamos ver como estão as coisas agora, 2 anos depois:


Russia and China setting up Universal Credit Rating Group to rival West's
'Big Three' credit raters

China and Russia are joining hands to pose stiff competition to US-based credit rating agencies, Moody's, S&P and Fitch, by setting up the new Universal Credit Rating Group (UCRG).

The first ratings of UCRG, which was created jointly by Russia and China, would be issued in 2015, according to Sputnik News Agency.

"In our opinion, the first ratings [will] appear ... during the current year," Alexander Ovchinnikov, head of the research department at RusRating told Sputnik.

The project is in its final stage, according to Ovchinnikov...


Este ano assistimos a declarações de que esta agência vai começar a operar ainda este ano. E na minha opinião esta agência vai ser usada para países que recorram a financiamentos alternativos, ou seja, é o mesmo que dizer, que recorram a financiamentos chineses. Longe do dólar, longe dos EUA, longe do FMI, longe do Banco Mundial.

Estes dois países, Rússia e China, formam em conjunto um formidável oponente aos EUA. Tenho acompanhado aqui neste blogue, algumas situações que ajudam a visualizar o quadro que se está a formar. A recordar:

- As reservas financeiras russas
- A acumulação de ouro por parte da Rússia
- O banco dos BRICS
- O uso de moedas dos BRICS nas suas transações
- Os acordos económicos e militares entre a Rússia e a China
- O redireccionar a energia russa para a China

Estes dois países possuem capacidade militar e económica para desafiar a potência dominante e estão dar uma série de passos, que irão a médio prazo, alterar o mundo tal como o conhecemos.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Europa Aumenta Dependência Energética Da Rússia






Vou novamente focar duas situações já faladas por aqui. A questão das sanções à Rússia e a questão da diminuição da dependência energética vinda da Rússia.

Este artigo pretende demonstrar que se está a passar exactamente o contrário do que se fala, do que se pretende.

A Europa tem vindo a dizer que tem como objectivo a diversificação de fornecedores e a diminuição da sua dependência da Rússia. Este objectivo tornou-se mais importante, dada a situação da Ucrânia.

Além disso, temos a questão das sanções, onde se pretende infligir economicamente o país pelas suas opções políticas.

O problema é que a Europa, é um grande consumidor energético, mas esgotado. A Europa  produz cada vez menos energia e as suas necessidades de importação aumentam. Daí o grande problema que se criou ao entrar em rota de colisão com o seu maior fornecedor. Certos países resolvem o problema à sua maneira, ou seja, renovam contratos com a Rússia, dando como prioridade o interesse nacional em detrimento das políticas europeias/nacionais para com a Rússia.

Mais um país resolveu dar uma "ajuda" à Gazprom e aumentou a sua importação de gás. Neste caso o Reino Unido. O novo acordo com a Centrica, aumenta a importação de gás russo em 70%.

De realçar as declarações do grupo:

Gas imports from Russia's Gazprom giant to soar after new Centrica deal 

...Last month, Centrica’s senior managers warned at the group’s annual general meeting that Europe will remain dependent on Russian gas for years to come, and dismissed suggestions that the EU can replace it with other sources as “unrealistic”.

“You can’t switch that [amount of gas] off easily without huge consequences. There is no way the United States can supply that volume of liquefied natural gas to replace it,” said the group’s chief executive, Iain Conn.


Russia has been a “reliable supplier of gas all the way through the Cold War”, and it needed European demand too, he added...


A Europa está a fazer um jogo muito perigoso com o seu maior fornecedor. Com o consumo continuamente a aumentar, a produção diminuir e empurrando a Rússia para a China, dentro de poucos anos, vamos estar dependente de muita gente. Se calhar bem pior do que os russos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

BRICS, O Banco, A Grécia E Putin



Eu ainda não tinha dedicado umas palavras sobre o novo banco, o banco dos BRICS. Um recente desenvolvimento compele-me a fazê-lo.

No ano passado, os países (Brasil, Russia, India, China e África do Sul) chegaram a um consenso e o banco avançou. O NDB (New Development Bank) terá um capital inicial de 50 mil milhões de dólares, onde cada um dos membros irá contribuir com 10 mil milhões de dólares, estando previsto ir para os 100 mil milhões.

De realçar que o arranque oficial do banco foi em Julho, em plena crise ucraniana.

Este banco, choca nitidamente com o FMI e o Banco Mundial. Ou seja, estas duas últimas instituições vão ter concorrência e esta poderá ser séria. Muito séria. 

O FMI e o Banco Mundial são controlados por países Ocidentais, e claro, por detrás de cada empréstimo existe também muitas opções políticas. Os países que pedem empréstimos estão muito restringidos nas suas opções políticas.

Este novo banco, vai criar novas opções para os países que precisem de um empréstimo. Também haverá opções políticas, resta perceber quais serão. Mas tendo em conta que é um banco criado por países emergentes, que discordam de como o FMI e Banco Mundial são geridos, decididamente o NDB não irá cair nas boas graças de alguns países. Vai definitivamente haver perda de influência.

Além disso, este banco ataca a moeda mundial, o dólar. A ideia é fomentar o uso das moedas dos BRICS e aumentar o intercâmbio destas moedas, entre os BRICS e com os países que recorram da ajuda destes.

O impacto disto é muito significativo, é uma grande ameaça ao dólar. A perda de força do dólar, implica perda de força/influência mundial por parte dos EUA. E aqui entra outro factor. A Rússia.

A Rússia, tem de facto, estar a incomodar cada vez mais os EUA. Tanto a nível geopolítico como económico. E como estes adversários não podem travar um confronto directo, as lutas são feitas a outros níveis.

Uma delas é no plano económico, a Rússia está a sofrer sanções económicas que visam o seu enfraquecimento e este não está apenas relacionado com a Ucrânia. Por outro lado, a Rússia quer diminuir a venda de petróleo em dólares. Tanto com a China, como com a Europa. Visando directamente atingir os EUA.

A Rússia não é a única a querer quebrar, esta dependência do dólar. Considero que o primeiro grande passo neste sentido, foi feito por Saddam, quando começou a vender petróleo em euros. Durou pouco tempo, mas a bola de neve começou a rolar.

De seguida tivemos o Irão, com a criação da sua bolsa de petróleo, onde começou a negociar vendas, sem usar o dólar.

Hoje já temos vários países a querer fazer o mesmo, principalmente países que não alinham com os EUA.

No caso da Rússia, além de querer fazer o mesmo, é o principal impulsionador deste banco juntamente com a China e na minha opinião uma das razões da grande acumulação de ouro que tenho vindo a indicar em artigos passados. A sua parte de capital para o banco está mais que assegurada em ouro.

Que faz de seguida? Putin convida a Grécia a juntar-se ao banco.

'Happy surprise' as Greece receives invitation to join BRICS bank

Greece has been invited to become a member of the development bank of the BRICS economies, including Russia and China, which is seeking to become a counterweight to the IMF, a move welcomed by Prime Minister Alexis Tsipras as "a happy surprise"...


Bem, as ramificações disto são vastas. Vou focar algumas. A Grécia está sem dinheiro, como é sobejamente conhecido. Para ser membro é preciso dinheiro. Todos os outros colocaram lá 10 mil milhões de entrada. Isto significa que esta oferta tem profundos contornos políticos.

- A Grécia é membro da UE.
- A Grécia é membro da NATO.
- As relações entre a Grécia e a Turquia sempre foram tensas, apesar de serem ambos  membros da NATO. A Grécia tem também material militar russo por isso mesmo.
- À Grécia foi oferecido uma ligação ao novo pipeline russo (Turkish Stream), onde seria um ponto de entrada para a Europa e uma enorme fonte de receitas (pais trânsito), dinheiro 
que actualmente é recebido pela a Ucrânia e que o deixará de receber, dentro de poucos anos.

E isto foi feito, com a marinha chinesa pela primeira vez a vir ao Mediterrâneo, fazer exercícios com a Rússia, entrando no Mar Negro. Ou seja, passou ao lado da Grécia, da Crimeia e da marinha americana, que quando algo "aquece" no Mar Negro (Geórgia, Ucrânia), os navios americanos gostam de marcar a sua presença. Agora os chineses também.

A oferta russa à Grécia é algo que poderá abanar os alicerces de várias instituições ocidentais, incluindo a UE.

Definitivamente é algo a acompanhar.

Algo que tem o potencial de mudar a Europa tal como a conhecemos hoje.

domingo, 10 de maio de 2015

O Isolamento Da Rússia (Act.)



As comemorações dos 70 anos da vitória sobre os nazis, permite fazer uma avaliação sobre o isolamento a que a Rússia está sujeita devido à crise ucraniana.

A imprensa tem falado bastante sobre isso. O Ocidente não marca presença nas comemorações. Regra geral mostram isso como prova da isolação da Rússia.

Eu não veja a coisa desta forma. Estas comemorações mostraram algo de interessante. Apesar da Rússia estar a ser alvo de sanções/pressões ocidentais, outros líderes marcaram presença e esta não pode ser ignorada. Estes líderes sabem perfeitamente que o Ocidente está de costas voltadas à Rússia, mas isso não é impedimento para a sua comparência, transmitindo uma mensagem de apoio.

Os países que destaco, são essencialmente os países BRIC.



Com excepção do Brasil, que se fez representar pelo o seu Ministro da Defesa, os líderes da China, Índia e África do Sul, estiveram presentes. Dado a importância crescente dos BRICS no mundo, é relevante ver a diferente atitude destes comparado com os países Ocidentais.

Dificilmente se pode falar em isolamento, quando os líderes que representam 40% da população do mundo marcam presença ao lado da Rússia.

Pela 1ª vez uma guarda de honra chinesa está presente
nas comemorações


Também esteve presente um contingente indiano

Além de todas estas presenças, destaco uma outra que considero muito importante e positivo a sua comparência, o que indica para mim, a existência de um diálogo, um não querer fechar portas.

O motor da União Europeia, a Alemanha, esteve no dia seguinte representado pela sua líder Angela Merkel, tendo estado com Putin.



Considero de extrema importância e deveras positivo o facto de Merkel ter comparecido. A Alemanha não é um país qualquer e foi exactamente a Alemanha que compareceu na Rússia.



A situação da Ucrânia é bastante delicada e prejudicou imenso as relações Rússia - UE. Por outro lado, intensificou as relações com os BRICS, especialmente a China. Algo que terei que escrever num outro artigo.

Feitas as contas, e pela quantidades de chefes de estado que estiveram presentes, salientado o presidente chinês e a chanceler alemã, a Rússia de facto esteve longe de estar isolada. O que demonstra que o "isolamento" e as sanções aplicadas ao país, não vão conseguir desviar as linhas políticas que estão a ser seguidas actualmente.

- . -

Resolvi acrescentar mais um dado que considero pertinente para a linha de pensamento que pretendo transmitir neste artigo.

Também os EUA fizeram-se representar, indo mais tarde, tal como fez a Chanceler Merkel, com o secretário de estado John Kerry.

John Kerry e Sergei Lavrov, memorial da 2ª Guerra Mundial


John Kerry em Sochi

Esta é a primeira visita de John Kerry desde o inicio da crise ucraniana. Apesar de não estar no dia 9 nas comemorações, esteve hoje dia 12. Apesar do conflito ucraniano ser um conflito geopolítico entre os EUA e a Rússia, é importante manter uma porta aberta, uma ligação. Pois são dois adversários que não se podem enfrentar directamente na arena.

sábado, 2 de maio de 2015

China e Rússia: O "Ataque" Ao Mediterrâneo




Se tem havido tanto indignação, sobre "invasões" russas no espaço aéreo Europeu, tendo em Portugal registado várias "intrusões" tanto aéreas como navais, vai ser interessante ver como o Ocidente irá reagir ao que vem aí.

Numa altura em que a Rússia tem estado ao rubro devido à questão ucraniana,  ver, pela primeira vez no Mediterrâneo um exercício conjunto (este mês) entre as Marinhas russas e chinesas vai concerteza dar que falar.

Esta parceria naval no meio do Mediterrâneo, é uma mensagem aos EUA, à NATO, à Europa. Tanto a Rússia como a China querem ter uma palavra a dizer em outras partes do Globo e será interessante verificar se irão fazer alguma visita a um dos portos amigáveis disponíveis no Mediterrâneo. Afinal a China tem muitos interesses e muitos investimentos em países que banham o Mediterrâneo.

Iremos ver a frota chinesa em algum porto amigável?

Infelizmente, o facto da Europa ter entrado em rota de colisão com o seu maior fornecedor energético, tem empurrado para uma maior parceria entre a China e a Rússia. Estas opções europeias terão grandes repercussões no futuro, e duvido que sejam positivas.



China, Russia to hold first joint Mediterranean naval drills in May


China will hold joint naval drills with Russia in mid-May in the Mediterranean Sea, the first time the two countries will hold military exercises together in that part of the world, the Chinese Defence Ministry said on Thursday. 

China and Russia have held naval drills in Pacific waters since 2012. The May maneuvers come as the United States ramps up military cooperation with its allies in Asia in response to China's increasingly assertive pursuit of maritime territorial claims...

...Since Western powers imposed economic sanctions on Russia last year over the violence in Ukraine, Moscow has accelerated attempts to build ties with Asia, Africa and South America, as well as warming relations with its former Soviet-era allies.

...U.S. President Barack Obama accused China on Tuesday of "flexing its muscles" to advance its territorial claims at sea...