sexta-feira, 29 de março de 2019

Europa: Gás Americano Vs Gás Russo

Vou dar inicio com a parte final de um post ( Sines: Gás Americano Vs Gás Russo ) que fiz em 2016:

"A Rússia prepara-se para entrar no mercado do gás natural líquido em força e vai poder chegar a todos os clientes, Portugal incluído.
Os EUA que só agora começaram a exportar, além de sentirem a pressão dos produtores existentes, vão sentir muito em breve a pressão enorme que a Rússia vai fazer nos mercados mundiais."

Estamos em 2019 e podemos constatar que a Rússia está a começar a mostrar que está mais que bem preparada para lidar com a tentativa dos EUA de penetrar no Mercado europeu.

Muito se tem falado no gás americano como alternativa ao gás russo, havendo no inicio noticias da chegada de embarcações á Europa, tal como falei aqui também. Mas tal como previ, a Rússia iria criar grandes problemas e no mês de Fevereiro temos péssimas notícias para os EUA:

Russia ships record high LNG volumes to Europe in February

Russia delivered a record amount of liquefied natural gas (LNG) to Europe in February, becoming the biggest supplier of the chilled fuel to the continent for the first time

A total of 19 cargoes, or 1.41 million tonnes, of LNG from the Yamal LNG plant in Russia’s Arctic reached regasification terminals in Europe in February, with the majority of those going to northwest Europe, Refinitiv Eikon data shows. 

This is the largest monthly amount of LNG from Yamal to arrive in Europe since the plant was launched in Dec. 2017 and also the first time Russia has become the biggest LNG supplier to Europe, surpassing traditional suppliers, such as Qatar, Nigeria and Algeria, as well as a newcomer, the United States. 

[…]

In February, shipments from the United States to Europe dropped to nine cargoes, or 0.64 million tonnes, the lowest level since November

[Link]

Os EUA não estão a conseguir competir com uma Rússia avassaladora, onde já não é uma batalha de pipelines versus embarcações. A oferta russa agora chega a qualquer país europeu que queira comprar  o seu gás.

As tentativas de impedir a construção dos pipelines russos, não vão obter o efeito desejado. A Rússia fez os trabalhos de casa e os EUA não vão conseguir quebrar os elos existentes entre a Europa e a Rússia.

sábado, 19 de janeiro de 2019

A Nova Frota Russa

 
Navios GNL Classe Arc7
  
A nova frota russa a que me refiro, não é a nível militar, mas sim a nível civil. Temos visto as novas embarcações da marinha a disparar novos mísseis, mas a modernização do sector civil tem sido mais discreta, ou não chama tanto a atenção nas notícias.

Como já tinha referido anteriormente, Sines: Gás Americano Vs Gás Russo a Rússia está a fazer uma grande aposta no Gás Natural Líquido. Em 2016 tinha chamado a atenção para a encomenda aos estaleiros Sul-Coreanos de 15 novos navios únicos na sua capacidade de atravessar o mar gelado russo sem recurso a quebra-gelos, tendo nesse ano dado início à construção do primeiro, o Christophe de Margerie, que começou operações em 2017.
 
Neste momento, já conta com 10 navios destes, ou seja dois terços da encomenda, o que permite acelerar juntamente com o aumento da produção do GNL russo que ficou mais cedo disponível do que o previsto.

Este é mais um péssimo sinal para a entrada do GNL americano na Europa. Já não é uma questão de competir com o gás russo fornecido por pipeline, agora a Rússia consegue competir também no próprio fornecimento de GNL, o que arrasa por completo a tentativa de penetrar na Europa. Países europeus só vão adquirir gás americano por opções políticas e não por opções económicas.  Claro que esses países ao comprar energia mais cara, vão claramente ter problemas para competir com países que a compram mais barata.

Nitidamente a estratégia não assenta apenas em encomendar navios específicos para navegar em zonas cobertas por gelo.

A Rússia está a investir em estaleiros que possam construir esses mesmos barcos, como o estaleiro Zvezda.

Estaleiro Zvezda
 Este estaleiro deu início a uma grande modernização em 2015, tendo recebido guindastes de grande porte (2 de 100 T, 2 de 320 T e 1 de 1200 Toneladas), tornando-se no maior estaleiro civil do país, contando com 1500 trabalhadores, está previsto aumentar até aos 7000 e com isto a Rússia pretende a capacidade de construir domesticamente qualquer navio que o país necessite.
 
A comprovar esta estratégia temos as recentes encomendas que recebeu. No segundo semestre de 2018, teve um aumento de quase 50% de encomendas, com uma lista de 37 navios para construir, incluindo navios GNL Arc7 e petroleiros Aframax que até hoje só poderiam ser construídos no estrangeiro.

A estratégia é clara. Para garantir que os estaleiros vão estar sempre com encomendas, a Rússia pretende obrigar que só navios de construção russa  possam operar na nova rota que criaram e completamente controlada pelo o país. Se existem empresas que querem o gás russo, vão ter que o comprar e para o transportar terão também que encomendar a construção de navios russos.
 
Para garantir a viabilidade desta rota, novos quebra-gelos alguns com capacidade nuclear estão a ser encomendados, 3 dos novos quebra-gelos nucleares que estão prestes a surgir serão os maiores e mais potentes do mundo, conseguindo quebrar gelo com 3 metros de altura.
 
Projecto 222220 LK-60 Nuclear - O primeiro está previsto para este ano
 
Existem duas grandes passagens marítimas que ligam o mundo, o canal do Panamá e o canal do Suez, ambas debaixo do olhar atento da marinha dos EUA. A nova passagem que a Rússia está a criar, será completamente controlada por esta, não havendo hipótese para os porta-aviões americanos por lá andarem.
 
A Rússia apresenta-se como uma ligação terrestre, aérea e agora marítima que une o continente europeu ao continente asiático e tudo fora do controlo dos EUA.
 
A nova frota russa vai causar grandes estragos às pretensões globais que os EUA pretendem continuar a ter.